22.4.04

- Então?
- Não sei. Tá se mexendo?
- É claro que não.
Os dois olharam e se entreolharam e olharam de novo.
- Por que "é claro que não"? Eu acho que tá se mexendo. Olha aí.
- Não tá se mexendo. É como uma barata morta, sabe, você vê as antenas e as patinhas se movimentarem, mas não está mesmo se mexendo.
- Hm.
Um líquido grudento vermelho-maravilha-cor-de-melância escorria, sem parar. Eles estavam lá há algum tempo já, e a gosma não parava de escorrer. Fazia um barulho interessante conforme escorria, em maior ou menor intensidade.Um som quase musical, mas um pouco perturbador. Como aquele som da fita rebobinando dentro do vídeo. Alguém aí ainda lembra?, vai saber, né, nesse mundo cheio de DVDs e maravilhas tecnológicas silenciosas. O mundo vai perder a graça quando os apetrechos domésticos perderem completamente o ruído. E brilhava, um pouco, conforme melodiava aquela gosma. Parecia viva. Viva e agonizando. Morrendo. Lutando. Indo embora daquele corpo morto pra procurar abrigo em algum outro, mais jovem, mais propenso às dores e fantasias. E, naquele canto surdo, pedia ajuda. Hipnotisava, sem transe algum.
- Então?
- Não sei. Doeu muito?
- Não doeu nada. E nem tô sentindo diferença agora. - e olhou para o próprio peito, um imenso buraco por onde enxergava até o outro lado.
- Vamos embora, então.
Jogaram os pedaços de ferro usados para espancar no chão. Viraram as costas. Caminharam de maõs dadas.

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