19.11.04

esse mundo é tããão chato. tão previsível. tão cheio de pré-conceitos bestas.

nesse mundo chato eu sou uma menina que fala palavrões demais de acordo com os parâmetros - que são as outras meninas educadinhas, embora boa-educação não tenha nada a ver com palavrões ou com a cor do meu cabelo. e aqui, de volta ao mundo, eu não posso falar palavrão e preciso ser articulada e gentil ao me dirigir aos mais velhos, mesmo que eu não seja articulada e gentil por natureza, nem mesmo com as pessoas que eu mais amo nesse mundo, que são meus amigueenhos, um bando de filhos da puta do caralho.

aí eu não posso falar palavrões e devo sentar com as pernas cruzadas ou juntinhas, que-você-não-é-mais-criança-menina. sou, sim, mamãe, sou sim. você é que não percebe. ah, mas agora eu tenho seios e menstruo, já-é-uma-mocinha, já posso passar maquiagem e perfume e usar salto alto. enquanto isso, aqui, os coturnos não engraxados jogados num canto do quarto, e as notas na escola cada dia piores, e número de palavrões cada vez maior. e a maquiagem, que eu passo sim, mas também nunca tiro, então ela borra e borra e borra e forma uma olheira feia embaixo dos meus olhos bonitos - mas eu gosto, vó, eu gosto. não, vó, a franja não tá incomodando minha vista e a intenção é cobrir a cara mesmo, vó.

e, mesmo com a franja e os coturnos e os palavrões, eu obedeço a minha mãe. eu sou gentil e articulada com os mais velhos e conto sobre meus planos para o futuro - que são falsos, mas causam boa impressão - e digo que, sim, estou indo bem na escola, sim, o colégio é ótimo, sim, eu tenho muitos amigos, sim, eu sou muito feliz.

é, e meninas felizes precisam ter um namorado, e ouvir perguntas incômodas, e ter que ficar vermelhas e rir de um jeito tímido e delicado e feminino. enquanto o namorado tá lá, não sei onde, comendo mil meninas e rindo com o pai, esse-é-meu-filhão. mas se a menina feliz deixa o menino passar a mão na bunda, ela-é-uma-rodada-puta-sem-vergonha-onde-já-se-viu.

e não importa quão gentil eu seja. quão boazinha. quão fofa. porque se, num ataque de raiva eu jogar um livrinho no chão eu vou ter que ouvir um ah-mas-como-ela-é-indelicada.

é aí que eu desisto.

tchau.

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