6.1.05

eu tenho dito e escrito menos palavrões e eu preciso de alguém com um pé na psicologia pra me dizer se isso é bom ou não.

meu avô está muito doente e eu duvido que ele viva muito mais do que alguns meses e a verdade é que eu ainda não sei como eu deveria me sentir em relação a tudo isso. é claro que alegria não é a palavra do momento, mas eu apenas não sinto nenhuma vontade de chorar quando penso no assunto. eu fico muito mais triste pelos que ficam aqui do que por meu avô ir embora. ele está muito fraco e eu não posso deixar de lado o fato de que a agonia de estar doente vai embora com ele. o problema é minha vó, que pela primeira vez desde que eu nasci chorou, e que vai ficar num apartamento novo, com mais da metade de suas coisas ainda encaixotadas, sem o marido com quem ela vive há sessenta anos. ela é a única da família que ainda não compreendeu que meu avô não vai se recuperar, nem voltar a trabalhar, mas meu pai e minha tia concordaram em não forçar nada, não a deixar mais triste do que já está, mesmo que isso implique num impacto muito maior quando meu avô realmente falecer.

nunca me ensinaram a me portar em relação à morte, muito menos quando é de alguém tão próximo e que conviveu comigo por tanto tempo. quando minha bisavó morreu eu só fiquei sabendo depois de tudo, e não senti nada - nenhuma dor, nenhuma sensação de perda. o mesmo com a minha tia-avó. eu nem fui ao funeral, ao enterro, ao nada delas. é claro que vai ser diferente, eu vou ficar infinitamente mais triste com a morte do meu vô, mas o meu medo é minha dor não corresponder à dor de todos ao meu redor. porque em não chorar eu não vejo problema. ninguém pode me culpar, nem me obrigar a sentir mais do que eu, naturalmente, já senti. mas me incomoda não me sentir tão afetada enquanto todos os outros estiverem sofrendo até o cu. nada me soa mais egoísta do que não compartilhar a dor das pessoas que eu amo.

e, independente da morte em si, há o escritório, que sempre foi comandado por meu avô e que, de repente, veio pras mãos da minha família. ninguém nunca me incentivou a me interessar pelo trabalho do meu avô. ninguém nunca me explicou direito pra que aquele escritório servia. e, agora, sem mais nem menos, quando eu já decidi o que eu quero estudar e quase decidi o que eu quero fazer, eu sou intimada a aprender e me preparar para herdar a empresa - que eu não sei como funciona, nem nunca quis saber. todos sempre acreditaram que meu avô ia viver pra sempre. ninguém nunca se preocupou em me familiarizar com um negócio que muito provavelmente seria meu, portanto os pouquíssimos planos que eu fiz não chegaram nem perto de comandar uma empresa de comérico exterior. e agora eu tenho que me acostumar com a idéia de talvez ter que abandonar tudo o que eu queria pra mim, pra tomar conta de algo que eu não vou gostar de fazer e que não vai envolver nem de perto o que eu queria estudar.

nada é certo ainda, talvez minha mãe dê conta do escritório sem mim, mas eu não posso apostar em nenhum time. tudo o que sei é que trabalhar permanentemente na empresa vai foder com as viagens que eu queria fazer, e com a intenção de morar longe daqui, e um monte de outras coisas que eu esperava - e que estava pronta pra fazer acontecer.

é incrível como em um segundo tudo que você pensa que sabe sobre sua vida e sobre você mesmo muda, em razão de acontecimentos que, no momento anterior pareceriam nunca te afetar. eu sei que é clichê, mas talvez aceitar alguns clichês faça parte de amadurecer e esse processo inclui não fazer planos nem ter expectativas - porque a verdade é que você não toma conta da sua vida por completo. sua onipotência sobre si mesmo pode desaparecer por qualquer motivo ínfimo, ou ser assoprada pra longe por alguém que você achava não ter nenhum poder sobre você.


(texto chato, eu sei, mas sobre assuntos que eu precisava colocar pra fora. blog cumprindo seu papel principal de válvula de escape)

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