12.4.06

a carne do meu sentimento


[uma homenagem a raduan nassar]


pela memória dos tempos claros que nunca vieram eu sigo andando, sempre para frente (há outra direção?) e sempre sem alcançar o alto, aquele alto que está sempre olhando para mim, zombeteiro, sabendo que lá nunca chego, não importa o quê, por quê, quanto, ah, esse alto divinizado e inatingí­vel e tão desejado, tão desejado (talvez por ser tão desejado seja inatingí­vel, ou talvez seja o contrário, quem sou eu para tentar entender?, eu como meu pão de cada dia, sem reclamar, sem pedir por mais, mas também sem aceitar muito menos com meus palavrões sempre em punho e essa desagradabilidade que me rodeia sem remorsos nem compaixão, talvez eu mereça menos, mas o que eu sei é que mais do que isso eu nunca vou receber); a mim essa cidade nunca pareceu tão agressiva, são as avenidas ásperas, e o ônibus que me recebe tão inóspito, cuspindo suas gentes e engolindo tantas outras, eu entre elas, aquela fração que nada nunca consegue digerir, a indigerí­vel sempre, aquela que os ácidos atacam e machucam, mas que sai inteira, embora machucada, embora atacada, embora fraca e ingênua, embora às vezes pedindo, implorando pelos ácidos que corróem, mas indiferentemente imune, odiosamente imune, pateticamente imune; e o que eu diria se me perguntassem, o que eu teria vontade de dizer se me perguntassem, é "venham com suas armas e seus varões, com suas palavras rudes e ocas, OCAS, venham com suas pedras e seus revólveres, venham com o doce que atrai os insetos, venham e me consumam, me despedacem, que eu já não sei o que é chão e grama e flor, não sei o que é alicerce nem caminho, não sei o que é amor e não sei o que é inveja, não sei o que é ser pessoa nesse nesse espaço sem chão e grama e flor, sem alicerce nem caminho, sem amor e sem inveja" é isso que eu gritaria para todos se eles ouvissem, e ainda continuaria "e não digam que são maiores, que são melhores, que não são brutos e não têm coragem de fazê-lo, não digam coitada da moça perdida de deus e do mundo, vamos tentar ajudá-la, vamos fazê-la se encontrar, encontrar a luz, porque eu não preciso disso, eu sei onde está a luz e eu a ODEIO, eu sei onde está deus e eu o DESPREZO, eu sei onde está o mundo e eu o DESTRUO, eu não me perdi, quem se perdeu foi o resto, foi a terra úmida e macia, foram os olhos gentis e sinceros, foi a música honesta e triste, não eu, não eu!, NÃO EU"; eu contaria uma história lendária oriental, sobre paciência, sobre virtude, mesmo sem acreditar em nada disso, virtude não existe, existem fantasias e máscaras, não virtude, mas eu contaria pela beleza da lenda, a beleza, sempre tão desprezada, sempre tão odiada, sempre posta de lado pelas tais virtudes inexistentes, quando o importante é somente a beleza, ela é a única que existe e existe porque causa inveja e causa amor, porque constrói os caminhos e os alicerces, e também os destrói, e existe verdade mais absoluta do que aquela que constrói e destrói a tudo e a si mesma? a autodestruição é real e é saudável, e a beleza é imutavelmente autodestrutiva; por isso eu acabaria minha história cuspindo na face do velho oriental sábio de barbas brancas que a protagonizaria, eu daria um murro na cara dele, eu diria que a mãe dele foi uma puta e eu viraria as costas e procuraria um bar para tomar uma cerveja, duas cervejas, dez cervejas; mas eu não faço nada disso, não digo nada disso, eu prefiro me calar e tomar um gole do vinho tinto barato guardado no armá0rio do meu quarto de pensão, essa pensão suja da qual meus pais se envergonham tanto, a qual meus irmãos tanto amaldiçoam, essa pensão suja que me sugou para a vertente maligna e absoluta do errado, que me distanciou da famí­lia e de sua tão prezada união, quando a verdade é que eu já tinha me distanciado muito antes de ir embora, naqueles dias de chuva em que lentamente eu dançava nas pontas dos pés descalços no meio do mato, com as mãos livres no alto (ah!, o alto, nesses tempos em que eu ainda o tinha como í­ntimo e próximo), os olhos escuros vibrantes de lascí­via, a lascí­via que se escancarava sempre em todas as minhas ações e que fazia meu pai me odiar, mas eram esses minutos de chuva os que me deixavam mais livre e mais feliz, porque era tudo tão simples e tão verdadeiro, tão bonito... e sempre tão pouco...; a filha com o demônio no corpo, a filha que nós não conseguimos curar, era isso que meu pai dizia, de acordo com os relatos da minha irmã, a única que me visitava, embora eu soubesse não porque gostava de mim, mas porque queria me convencer a voltar, essa volta que nunca aconteceria, porque o encontro de meus olhos lascivos com os olhos amargurados de meu pai, com os olhos abandonados de minha mãe, esse encontro só traria mais desgosto a todos - ninguém me queria devolta, só queriam que eu soubesse quão mal eu havia feito ao equilí­brio da casa; e por mais que me doa ficar aqui, voltar é algo que nunca teria se tornado possí­vel, eu não consigo sair da carne de meus sentimentos, a carne crua e seca, mas ainda assim minha, ainda assim aqui e minha, não lá, seja lá onde for, lá com a atmosfera de desaprovação e raiva magoada, prefiro esse meu canto sem dobras nem resquí­cios de nada, sem tonalidades desconfortáveis, sem arestas que não se encaixam, aqui tudo se encaixa e tudo é encaixotado, eu e meus pedaços, meus cacos, eu e meu céu nublado que nunca mais choveu, eu e meus passos deixados para trás; eu e meus passos deixado para trás, meus passos sempre deixados para trás... (pela memória dos tempos claros que nunca vieram eu sigo andando.)

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