20.9.06

instinto de conservação


- amor! Não ouse esticar os braços para tentar me envolver com a ilusão do amor. Não aponte suas palavras amareladas para meus olhos gastos e desiludidos, essas mesmas palavras que assassinam sonhos e ridicularizam idealizações. Depois de tantos arranhões, não me venha falar sobre amor. Porque a mim não importa nada! esse corpo, acho-o pesado, acho-o feio, considero-o repugnante, apenas suporto-o porque sei que devo suportá-lo! alma? Pois não encubra as mentiras humanas com essa abstração reluzente. Como pode mencionar uma alma quando dia a dia eu vejo nossas imagens se deformarem nos espelhos, assisto a degradação de nossas mentes, de nossos movimentos, de nossa pele - essa pele desprezível que nos cobre! Demonstre-me por príncipios científicos que vale de algo torcer por uma alma, nesse sopro insignificante que é a vida terrena. Essa vida miserável, que nos proporciona um prazer amargo e venenoso, onde está o amor nela? Não tente explicar-me. Não quero ouvir. Pois se eu souber que, depois de seis, ou dez, ou mesmo cinqüenta anos carregando essa matéria humana retumbante que tanto desprezo, o fim estará ali, à espera, e será apenas o fim, e eu não terei pago minhas dívidas para com esse grão de areia em que vivo, largo tudo agora mesmo! Desisto, jogo esse corpo incômodo à morte, sem pestanejar. Não fiz ainda pela esperança vã de que, não!, não deve acabar assim. Conservo-me por essa simples teimosia da qual não consigo me separar. Mas, digo-te, esqueça-me, esqueça o amor em que pretendia me acolher, esqueça a alma na qual me personificaria; nada disso é real. Estou trancada em mim mesma e não pretendo sair; fico longe com a escuridão que há por aqui.

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