24.1.09

(de ana cristina)

Mais um...

Mas é claro que a nostalgia dos teus beijos! da paixão azul! do espetáculo das emoções mortais!
Hoje sinto falta de fazer conjecturas e dizer adeus com os dedos longos estirados para trás. Em que pose torpe me encontro, exclamo várias vezes. Verso temas favoritos da nostalgia: 1. a lista dos monumentos desconhecidos; 2. a lista das imagens desconhecidas; 3. a falta de personagens que animem as minhas páginas diárias; 4. que o azar é todo teu; 5. a pobre corrosiva figura do ouvinte que tem toda a carne que me falta; 6. mas as listas outra vez, meu deus como eu amo as listas, como me vicio em passar nelas as noites e quão poucos objetos!
Mas Sim, enfim sinto que te mereço, e sinto que meus escrúpulos não foram em vão, mas enfim, a-mo-te, minhas pernas estão soltas no pequeno balcão defronte ao Tejo e as longas baforadas de fume estas sim para os céus. Rio como uma febre daninha, gargalhadinha da criatura curta e encurvada que sou e dos enganos de que te alimentei (Assim se faz a literatura... Santos Deuses, assim se faz a...). Tendo experimentado o mistério da maternidade agora estaria por certo em paixão carnal pela própria e misteriosa filha, mas como se encontrariam seus sérios e solitários e mórbidos corpos?
[Acontece assim: tiro as pernas do balcão de onde via um sol de inverno se pondo no Tejo e saio de fininho dolorosamente dobradas as costas e segurando o queixo e a boca com uma das mãos. Sacudo a cabeça e o tronco incontrolavelmente, mas de maneira curta, curta, entendem? Eu estava dando gargalhadinhas e agora estou sofrendo o nosso próximo falecimento, minhas gargalhadinhas evoluíram para um sofrimento meio nojento, meio ocasional, sinto uma dó extrema do rato que se fere no porão, ai que outra dor súbita, ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera saber dividir meu corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.]

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