29.5.09

versão 1: antônia, aquela vaca, nunca amei tanto ninguém. antônia tinha os olhos tristes, a língua afiada e as unhas sujas; a alma daquela mulher estava nas unhas. que ela me desprezou todas as vezes, nem preciso dizer. antônia me dizia baixinho meu amor meu amorzinho, mas não gozava. só gozava trepando com estranhos, desses que não se pergunta o nome, em discotecas e boates. outros paus, outros caras, nunca eu.

versão 2: antônio me amou como se amam os tijolos de uma casa; a gente tem certeza que gosta das paredes, mas não reconhece cada tijolo como especialmente importante na construção. antônio me alimentou, me comeu, me ensinou a fazer conta e a me arrumar do jeito certo, pra outros homens no futuro gostarem de mim. eu queria que ele me beijasse as mãos, mas ele me explicou que as mãos são sujas e a gente deve manter distância. também me disse que pintar as unhas de vermelho era vulgar, mas eu não queria ser muito elegante, só queria que antônio tirasse minha meia-calça beijasse minhas coxas segurasse minha cintura e sussurrasse você é bonita como cada um dos tijolos de uma parede, menina.

Um comentário:

Nah Safo disse...

eu gostei bem.
as pessoas sempre se enganando, achando que o outro não quer, achando que não vai dar pé.

ai, se a vida não fosse assim, ia ser um desastre de felicidade instantânea. de "vai dar pé, sim"

sorte que não dá.