4.6.09

(da série: cartas a antônio)



antônio,

você não deixou nada aqui dentro em que eu pudesse acreditar, nem mesmo dor. eu me lembro dos meses que passei na janela esperando você voltar, ou só passar e me mandar um beijo, como quem diz não tô aí mas sei de você, e também das vezes que outro alguém tocou a campainha e eu atendi, antônio, atendi pensando que podia, enfim, ser você, e me lembro também de quando eu deixei um entrar, abri espaço, na minha sala e no meus braços, pra ele tomar conta de mim, pra eu poder fazer jantar pra ele mais tarde e assistir o noticiário na poltrona do lado da minha. antônio! ele se parecia tanto com você. e se você pudesse ter assistido, se me visse abrindo a porta e sorrindo, e passando os dedos no cabelos dele, castanhos, da mesma cor dos seus - e também o sorriso dele tinha tantos dentes quanto o seu - se você me tivesse visto recebendo as mãos dele na minha cintura como eu já tinha recebido as suas... ah, antônio, eu queria poder te trair, queria conseguir te magoar, mas se prestar muita atenção, o homem que me teve era você, dentro de mim ele era você, e eu fui feliz, amor, enquanto ele foi você.

4 comentários:

Nah Safo disse...

boa. gostei.

[ modelo de crítica blasé. só com amigas ex-francês]

Flávia Onaga disse...

"e também o sorriso dele tinha tantos dentes quanto o seu"

muito bom.

[modelo de crítica natália.]

Nah Safo disse...

só a Mel pra lembrar que meu nome tem H

e pra citar: "fui feliz, amor, enquanto ele foi você."

genial. encaixou perfeitamente.
era a frase que o texto tava pedindo. e você sabia, não sabia?

você sabia...

Homem do Saco disse...

Loved!
Me lembrou o que eu sinto ao ver Closer... é um dos filmes da minha vida, sim! E em duas dúzias de linhas... parabéns!Você conseguiu!