27.6.09

das cartas que antônio enviou à anna, furtivamente roubadas



querida anna,

tudo que eu lembro é da sua camiseta branca, onde minhas digitais seriam facilmente identificadas, se fosse preciso, por isso vou dormir toda noite tentando sonhar com seu rosto. você falava coisas engraçadas. e talvez seja verdade mesmo que a gente sonhe mais do que viva, mesmo eu não tendo sonhado muito desde que eu me mandei. querida, eu sinto o cheiro dos nossos lençóis toda manhã, me arrependi de ter deixado eles pra trás, mas. ao mesmo tempo, a memória é só mais um registro, como qualquer outro. e se eu não quis as fotos, não quis os cadernos e não te quis, não sei que assombro é esse com os cheiros que eram nossos e as cores que eram suas. eu só preciso ouvir de você que sim, uma pessoa pode mesmo reinventar algo.

você me desvendava, anna, reconhecia tudo que era meu, e isso me matou de algum modo. eu sei que no fundo você gostava disso, de ter me matado, e é por isso que agora eu preciso te dizer: nunca te amei.

antônio

Um comentário:

Pedro Obliziner disse...

Nossa, a frase "talvez seja verdade mesmo que a gente sonhe mais do que viva" me colocou numa viagem louca, continuei lendo mas com o pensamento longe, terminei no "preciso te dizer: nunca te amei" e pensei "opa! como assim?" e achei melhor reler tudo =] hahaha