15.7.09

querida anna,

uma vez a gente tava na praia e eu lembro que tinha comprado uma câmera pentax que precisava testar, e fiquei tirando fotos suas, enquanto você pedia por favor pra eu parar. mas eu gostava de te ver sentada, o livro não aberto na mão, o cabelo pesado de areia salgada nos ombros, e não me decidia se eu ficava nos tais ombros, no nariz, ou na pontinha dos seus dedos mexendo na areia.

anna, eu sabia que aquele era o nosso fim. à noite, na cama, enquanto você dormia daquele jeito tão seu, segurando todas as suas dores nos braços, eu beijei os ombros que eu não tinha tido coragem de fotografar mais cedo. e você suspirou, um suspiro bem longo, bem audível, de terror e nojo. você tinha medo de mim, anna? acho que hoje eu percebo que seu medo era do que a gente tinha virado, dos nosso silêncios, e das nossas noites em que você não gozava.

(por favor, perceba a ironia contida nos detalhes) eu lembro também que na nossa última noite naquele lugar eu segurei sua cintura e você tava olhando pra baixo. eu tinha emprestado minha pentax pra alguém e não consegui fotografar esse momento, seus olhos apontando pro chão, minha mão na sua cintura, e você olhou pra mim e sorriu. você sorriu, anna, porque não podia se livrar das minhas mãos, porque não podia falar nada e porque não podia chorar. você sorriu aquele sorriso de quem não tem mais nada a oferecer além de sorrisos, e eu acho que nada no mundo, durante todos esses anos, me machucou mais do que te ver sorrindo daquele jeito, os olhos nos meus.

aquela noite, mais tarde, eu te comi sabendo que ia ser a última vez, e nem me importei com as suas lágrimas. levei mais alguns dias pra enxergar o óbvio, mas não faz mal, tudo que é relevante passa despercebido por mim.

antônio

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