3.9.09

ai, sabe, o que fazer nessa cidade quando está 35 graus centígrados na sombra, eu não consigo acordar para aula, levanto mesmo assim, suada desajeitada querendo passar todos os meus dias restantes numa piscina até me afogar, até morrer com todos os dedos enrugados o cabelo podre de tanto cloro, mas eu levanto mesmo assim, me visto muito penosamente, me cubro com um vestido quase obsceno, porque está 35 graus centígrados numa sala fechada com ar condicionado, me forço a tomar os antibióticos os antiinflamatórios os antigripais e me arrasto até a faculdade num ônibus que parece uma câmara de gás, chego com o estômago doendo putz esqueci de comer compro um salgado e uma coca light, a coca light acabou de sair da geladeira e está borbulhando sofrida com o calor; nesse calor eu não consigo fazer nada além de dormir, se eu fosse a luisa do basílio estaria lamentando o tempo todo ai que moleza, estou mole, tão mole, mas não sou luisa, então chego em casa deito na cama e durmo por horas, acordo a tempo de sair pra dar aula, 43 graus centígrados dentro do meu quarto em cima da minha cama, a cachorra estendida no chão gelado tentando com todas as forças se refrescar; olha pela janela, começa a chover, dá tempo de trocar a sandália pela bota e resgatar o guarda-chuva de algum canto obscuro da casa. a pior parte é essa, 35 graus centígrados até debaixo da chuva torrencial e eu me enfio dentro de um ônibus em que o povo tão heróico que brada retumbantemente decidiu fechar todas as janelas; água não vai matar vocês mas a gripe suína vai, deixo a dica no ar, todas aquelas janelas fechadas porque o povo heróico tem medo de um pouco de água, e é isso, 214 narinas respirando aquele mesmo ar, respirando sem decoro nem finesse, respirando sem parar, reutilizando aquela atmosfera quente em que viajam sem discrição minúsculos e infinitos vírus h1n1 além de não sei mais que animaizinhos microscópicos portadores de doenças do terceiro-mundo - depois as pessoas me perguntam mas por que fumas, ó, bela dama? e eu vou responder agora que é porque estou tentando ao máximo evitar morrer de alguma doença subtropical; gripe dos porcos, dengue, lepstopirose, já me preveni contra tudo isso, até as gotinhas da polio eu continuo tomando ano após ano pra ter certeza que alguma paralisia de país subdesenvolvido não me surpreenda numa bela tarde de sol, quando eu morrer vai ser de cirrose de todos os pints de guinness que eu tomei, multiple failure of the organs, assim, em inglês mesmo, até alzeimer eu tô aceitando que é pros outros terem muito trabalho comigo, mas me recuso a morrer de doença que se pega no ônibus na rua na chuva na fazenda numa casinha de sapê.

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