11.9.09

antônio,

você não me responde as cartas mas eu continuo escrevendo, é com você que eu falo, só esse seu silêncio me entretém, se eu te escrevo é porque tenho seu endereço e mais ninguém a quem recorrer. o que eu queria dos outros - e de você - não era amor nem piedade. antônio, eu queria mesmo é poder te abraçar em silêncio, abraçar seus joelhos e encostar minha cabeça nas suas coxas, sem nem dizer uma única palavra. meu bem, não posso mais ficar parada, nossa incompatibilidade não me faz mais chorar à noite; se você pudesse me ver agora enxergaria no meu mais profundo desespero a falta de uma noite bem dormida, mas antônio, se eu não sinto mais sua falta o que é que me mantém acordada? eu sinto é muita sede.

te amo,
anna




querida anna,

não te entendo nunca, você nunca responde as minhas perguntas, você age como se o que eu dissesse não fosse absorvido pelas suas leituras. anna! me escuta. eu tenho pensado muito em você, isso me esgota. sua imagem me esgota. lembrar da cor dos seus cabelos me esgota. a perfeição dos seus pés me esgota.

é, esses pensamentos todos me esgotam, mas eu nunca decidi parar. eu gosto de pensar assim em você enquanto fumo um cigarro, dois, três, um maço inteiro, às vezes até dois, fumar também me cansa, anna, mas eu decidi nunca parar.

sabe, anna, tenho tido longas e desinteressantes conversas com pessoas que só existem na minha cabeça, cada uma dessas pessoas tem alguma das suas perfeições. um deles tem seus pés, o outro tem os seus dentes, aquele terceiro tem seus cotovelos, e isso continua infinitamente, são pessoas demais, é perfeição em exagero, sabe bem como é, esses semi-deuses que a gente cria. que eu crio. você diria agora que nada do que eu falo tem fundamento, mas pau no seu cu, anna, são só idéias que eu alimento, você também deve ter alguma religião profana que vive dentro de você e te serve de consolo nesses dias em que não te resta mais nada além daquele maço de cigarros que você guardou por precaução no fundo de uma gaveta quando decidiu parar de fumar.

até breve,
antônio

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