29.12.09

impressões


sobre plano de evasão

plano de evasão é um romance do argentino adolfo bioy casares, que por acaso é meu escritor preferido de todos os tempos e autor do meu livro preferido de todos os tempos, a invenção de morel.

olha, o grande azar do casares é ter ficado eternamente na sombra do borges, embora, na minha opinião desimportante, ele seja muito melhor. o trunfo do borges é que eles escrevia de maneira muito diversificada, então nós temos os contos fantásticos, os artigos, as crônicas. bioy casares estava no ramo exclusivo da ficção. e por isso mesmo conseguiu ser bem menos chato que o borges em muitos aspectos (mesmo porque alguns contos do borges são lotados de referências absurda e desparatadas e embora ele fosse, sim, de uma genialidade absurda só de ter na cabeça tanta coisa pra colocar nos seus contos, não há nada pior do que ter que parar pra procurar significados de referências a todo instante pra conseguir entender o que raios ele quis dizer). bioy escreveu contos, romances e novelas, todos com algum elemento fantástico e dos que eu li até o momento, todos incríveis. no posfácio de o sonho dos heróis (edição da cosac naif), rodrigo freán diz o seguinte: Bioy não só teve que suportar durante toda a sua vida a sombra terrível de Borges como também agora, além disso, adentra essa inevitável zona de sombras onde vão morar por um tempo os escritores mais ou menos recém-mortos, e da qual o resgata, outra vez, a injusta e eterna condenação, a publicação de seus diários sobre Borges.

um dia eu estava na rua e esbarrei sem querer uma barraquinha de livros usados e vi o plano de evasão à venda por 12 reais. dentro do livro tinha uma notinha do vendedor: "CLÁSSICO GÓTICO RARO". o vendedor obviamente não sabia nada sobre bosta nenhuma, casares não é um autor gótico e plano de evasão definitivamente não é um romance gótico, ams ele acertou no raro. não existem edições brasileiras desse livro, e em portugal existe uma edição recente da editora cavalo de ferro. a edição que eu comprei por 12 reais é também portuguesa, da editorial estampa, que é uma editora sobre a qual eu nunca ouvi falar.

quando eu terminei de ler plano de evasão tudo o que eu sabia sobre o livro era o seguinte: ele havia sido escrito por bioy casares em francês, não em espanhol. e eu só sei disso porque o título original é em francês e o livro se passa na frança. na verdade, não se passa na frança, se passa em ilhas na américa-latina, que são colônias francesas. o personagem principal é francês. o narrador da história é francês. todos os outros personagens são franceses. mas aí depois eu pensei que nada disso significa que o livro tenha sido escrito em francês, e decidi que vou achar que o livro foi mesmo escrito em espanhol como todos os outros livros e casares.

outra coisa que eu pensei era que plano de evasão tinha sido escrito antes da invenção de morel, porque parece um tipo de ensaio para o grande romance fantástico de casares sobre ilhas e a condição humana. mas morel é de 1940 e plano de evasão é de 1945. afora isso, na internet encontrei pouquíssimo sobre o livro. na wikipedia não há absolutamente nada, nem em português nem em epsanhol e nem em inglês. no google achei, em português, a edição a cavalo de ferro a venda e isso que eu penso ser uma ficha de biblioteca:




notem que também nessa ficha casares é tratado como um discípulo de borges, um autor menor.



além disso, achei, em inglês, alguns comentários e reviews. achei interessante que em inglês há mais material na internet sobre o livro do que em português e em espanhol, e que a maior parte desse material é de leitores. que haja poucos leitores latino-americanos não só de casares, mas desse livro em particular, eu compreendo. mas que esses poucos leitores não tenham nada na internet, nem um comentário de blog, NADA, me soa muito absurdo. a única coisa mais palpável que eu encontrei foi isso, uma mesa redonda que ocorreu em lisboa em 2008 para discutir bioy casares e de seus mundos fantásticos e, claro, sua amizade com borges.



em inglês achei reviews interessantes de leitores. no amazon achei o seguinte:

A Plan for Escape was the first book by Adolfo Bioy-Casares that I read. It was quickly followed by everything I could find by him. Bioy-Casares collaborated with the better known Jorge Luis Borges - and the prose shows that there is an affinity of genius.

This particular tale is a study on prisons - guards and prisoners - and the horrors that grow out of the relationship between the enprisoning and the enprisoned. If you want a straight line plot with everything neatly bundled at the end, this book is not for you. If you are willing to risk contemplating humanities' capacity for evil, you will be enthralled by this master.


é um review curto e objetivo e não me esclarece nenhuma das minhas dúvidas sobre o livro, mas pelo menos prova que o livro existe, que é estranho, e que, como casares é cosnegue ser no geral, é genial.

aqui achei o seguinte:

This short novel, firmly rooted in the Borges tradition, reminiscent of H.G. Wells, and thoroughly weird by conventional standards, is an exceptionally ambitious, intellectual mystery woven with horror and science fiction.

e aqui um review um pouco mais longo, do qual tirei o seguinte:

In Borges’ prologue for The Invention of Morel (by Casares too), he claimed that the 20th century was the century of narratives; that the previous centuries paled in comparison to the intricate plots a Kafka, a Chesterton or a Casares created. Nothing supports his contention better than this short novel: the atmosphere is sometimes unbearable, as if the reader were dreaming about drowning and couldn't wake up; the author conjures horrors with a minimum of words, sets up intense scenes and vivid characters with a few sentences. Like in the detective fiction he admired, the plot takes precedence.


This is not to say there isn’t a psychological component. Indeed the narration itself has the intricateness that I’ve come to expect from South American writers. A relative of Navers narrates the action, which he learned from the letters he received; sometimes he even mixes his words with quotes from the letters. But he’s not passive: sometimes he disagrees with what Navers says, sometimes he mocks him, sometimes he wonders if he isn’t insane. And through his words we see Navers being sucked to a horror he wants to reject but is compelled to pursue.

Anyone who loves mystery, oppressive settings, and madness; anyone who loves the nightmarish parables without end that Kafka created; or anyone who loves elegant, complex prose should love A Plan for Escape.


é claro que é difícil falar de bioy casares sem mencionar borges. embora eu considere um erro dizer que casares era "menor" ou um mero "discípulo" de borges, borges foi o único autor a realmente avaliar e analisar as obras de casares, e tudo que há para saber sobre elas tem que, portanto, partir da visão de borges. e ainda assim, é pouco material, alguns prefácios que borges escreveu para os romances de casares, nada além disso. mas no geral, sobre os contos, sobre a invenção de morel, há muito que foi dito e é fácil achar informação na internet. mas esse plano de evasão me tem soado um mistério tão estranho e absurdo quanto o que o protagonista investiga e eu não consigo morrer de tristeza ao pensar que casares morreu enterrando todos os seus segredos.

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