17.1.10

ontem eu tava lendo a invenção de morel do bioy casares. deve ser a oitava vez que eu leio ese livro e eu sei meus trechos favoritos de cor e ontem quando eu cheguei no clímax da história, quando o postulado fantástico é revelado e o mistério é resolvido, percebi algumas coisas meio inverossímeis. eu não sei nem se eu posso dizer such a thing, afinal é do melhor romance do casares que eu estou falando, um livro que até o próprio borges depois de ler, reler e "discutir seus pormenores" classificou como perfeito. mas vamos lá.

[se você está lendo o livro, acho que o que vem a seguir é uma espécie de SPOILER. se você nunca leu, o que vem a seguir é só um monte de informações nonsense, pode ir ler outro blog mais legal]

1 - depois que morel faz seu discurso aos habitantes da ilha explicando o funcionamento da máquina, o protagonista diz que pegou os papéis amarelos em que o discurso de morel estava escrito. o que eu me pergunto é: como ele pôde pegar os papéis se eles eram, também, projeção da máquina? antes dessa cena o narrador já tinha tentado mover um livro da prateleira, sem sucesso, pois o livro era apenas uma reprodução visual e tátil do que o verdadeiro livro havia sido no momento da gravação. da mesma maneira, ele não consegue abrir portas fechadas, porque se elas estavam fechadas no momento da gravação, devem permanecer fechadas na projeção. os papéis de morel não deviam seguir o mesmo princípio? o protagonista não apenas pega os papéis como os anexa ao seu relato.

2 - depois que o protagonista descobre que o motivo dos intrusos existirem são as máquinas, ele afirma que ainda irá até o porão para destruir as máquinas ou compreender seu funcionamento. oras, o período de tempo gravado pelas máquinas é de uma semana. o protagonista afirma que os intrusos apareceram na ilha na sua centésima primeira manhã ("Ontem à noite, pela centésima vez, adormeci nesta ilha vazia (...) adormeci tarde e a música e os gritos acordaram-me de madrugada). depois disso, o protagonista explica suas tentativas de fazer a força funcionar - ligando os motores do porão. fica claro que os motores foram ligados quando ele chegou a ilha, então a única explicação é que ele tenha ligado a máquina de morel na noite anterior à aparição dos intrusos. o diário não é datado, então só posso supor que a segunda incursão do protagonista pelo porão espelhado onde está a máquina tenha sido nessa centésima noite antes de dormir, o que explicaria o surgimento imediato dos intrusos. no entanto, se foi o próprio narrador que ligou a máquina, como ele pode afirmar depois que ainda irá averiguar o seu funcionamento para tentar desligá-la?

outra explicação é que morel já tenha deixado a máquina ligada por um período de tempo antes da chegada dos habitantes originais da ilha. embora 100 dias me pareça tempo demais, explicaria o período de tranqüilidade do protagonista antes da chegada dos intrusos, e também sua confusão quanto ao funcionamento da máquina, que ele teria ligado achando ser apenas um gerador de energia.

no entanto, se a máquina tivesse gravado por um período de 100 dias a ilha vazia e mais sete dias de morel e seus colegas, o narrador muito provavelmente já teria observado o fenômeno dos dois sóis e das duas luas antes de os intrusos aparecerem. além disso, a cada 7 dias de convivência com os intrusos, o protagonista teria mais cem de tranqüilidade. ao invés disso ele tem a projeção mais ou menos contínua dos 7 dias, o que aponta para a explicação de que morel só gravou uma semana e de que a máquina foi ligada pelo narrador na noite anterior.


(update 1:
na verdade, relendo o início do livro percebi que o protagonista nunca ligou a máquina de morel - a explicação para que ela passe a funcionar é a rotina das marés. morel projetou a máquina para que funcione de acordo com as marés, mas não as estudou direito e por isso a projeção dos intrusos é falha, não ocorre continuamente. ainda assim me parece muito pouco plausível que durante 100 dias não tenha havido nenhuma maré que fizesse a máquina funcionar, e que a partir da primeira aparição dos intrusos as marés tenhan sido constantes o suficiente para não dar ao narrador ai menos uma semana de descanso e solidão.)

(update 2:
damnit!: relendo o final agora me deparei com a seguinte explicação do protagonista: "A falta de imagens durante o longo período anterior à primeira aparição talvez se deva a que o regime das marés varia com os períodos solares.")

então fiquei só com o mistério dos papéis amarelos.
mas com papéis amarelos ou sem papéis amarelos esse livro é, indeed, perfeito. cada vez que eu leio as três últimas páginas eu morro um pouquinho {o:

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