19.3.10

the history of bears

Maybe the first time you saw her you were ten. She was standing in the sun scratching her legs. Or tracing letters in the dirt with a stick. Her hair was being pulled. Or she was pulling someone's hair. And a part of you was drawn to her, and a part of you resisted--wanting to ride off on your bicycle, kick a stone, remain uncomplicated. In the same breath you felt the strength of a man, and a self-pity that made you feel small and hurt. Part of you thought: Please don't look at me. If you don't, I can still turn away. And part of you thought: Look at me. (Nicole Krauss - The History of Love)

uma coisa interessante sobre os ursos é que ele são freqüentemente confundidos com o pé-grande. pra mim a razão disso é muito óbvia, mas essa é apenas a minha hipótese, e lembremos sempre que eu não sou uma expert em ursos e muito menos em pé-grande e outros seres que habitam o imaginário folclórico mundial: um jovem casal americano interiorano dirige no meio da noite vindo de nowhere em direção a lugar nenhum e é atacado por uma criatura gigantesca que se movimenta sobre duas patas (ou pernas). ora, todos sabemos que ursos na posição de ataque se apóiam nas patas traseiras e podem parecer ter uma forma humanóide. então é muito claro que o casal, no susto da situação e na impossibilidade de reagir, substitui um urso comum pela imagem de um ser meio homem meio fera que ninguém nunca mais verá. mas essa é só a minha teoria, que eu criei depois de assistir muitos episódios de monsterquest no history channel.

outra coisa curiosa é que o panda não é um urso, embora a gente geralmente diga "urso panda". além de ursos serem habitantes comuns do lado ocidental do globo, e até onde eu sei só no hemisfério norte (e se eu não me engano só nas américas, mas não tenho certeza disso agora. na minha cabeça aparecem flashes de ursos europeus), ursos são animaizinhos muito bonitinhos, mas ainda assim carnívoros, enquanto o panda é claramente um bicho vegeteriano, com uma saudável mas não muito apetitosa dieta que consiste em nada além de bambus.

mas o meu fato preferido sobre os ursos começa na verdade na história daqueles peixes que para se reproduzir sobem o rio contra a correnteza. esse movimento é chamado de piracema pelos especialistas, pelo que eu pesquisei, mas pros peixes isso tem um outro nome. eu não faço idéia de qual é a linguagem dos peixes, mas o que eu sei é que existem equivalências com a linguagem humana, e sei que a palavra humana que corresponde à palavra dos peixes para o movimento de subir o rio para se reproduzir não é piracema. o que acontece é que desde que nascem os peixes sentem essa queimação por dentro das escamas, e alguma coisa fica borbulhando neles e nenhum deles consegue entender até que chega a hora de subir o rio e todos eles pensam em uníssono "ah! era isso". essa borbulhação interna também ocorre com os pequenos e peludinhos ursos, a mesma sensação de que algo muito incrível vai acontecer a qualquer momento. os ursinhos crescem com isso dentro deles, até o dia em que eles decidem se arriscar e ir caçar sem os pais. o pequeno urso adolescente vai então até alguma nascente de rio, levado por sei-lá-eu que ânsia louca, e lá naquela nascente ele encontra os numerosos cardumes de peixes que nadaram até lá para colocar seus ovos. e nessa hora o urso pensa: "ah! era isso" e toda a borbulhação no seu estômago é explicada.

a palavra que os peixes usam pra descrever a queimação e a vontade de subir o rio, na linguagem humana não é piracema. é paixão. a palavra do pequeno urso para essa mesma vontade que o atrai para o rio é fome. é por isso que os peixinhos tiveram que criar uma segunda palavra, que foi amplamente adotada pelos humanos, para descrever, junto com a parte boa da borbulhação, que é a paixão, a parte ruim, que é o medo de ser devorado por um gorduroso urso pardo. essa segunda palavra é unbearable.

nós humanos não temos mais medo de sermos devorados por ursos (e quando sentimos esse medo preferimos afirmar que não é medo de urso, mas de pé-grande), mas unbearable vem bem a calhar quando precisamos nos referir a outras dorzinhas, essas que dóem de leve; saudade especialmente.

Um comentário:

Nah Safo disse...

Notando que a citação inicial é linda, vou citar algumas partes também, minhas preferidas:
os dois "ah! era isso" e "a palavra que os peixes usam pra descrever a queimação e a vontade de subir o rio, na linguagem humana não é piracema. é paixão." que só não ganha do final mais bonito impossível.

como você mesma disse, também senti algo de infantil para nem-sempre-crianças. nas entre-linhas, no history channel, na dieta não apetitosa de bambu.
mas nada melhor que saber descrever o inevitável de um jeito bonito. eu acho que é isso.
é o tipo de coisa que se pode contar pra uma criança, pois, pelo modo narrado ela vai se interessar.
mas que se um adulto ouvir de longe, fingindo que não, também vai se sentir tocado.

não sei se era esse tipo de comentário que vc queria que eu desse, ainda que lendo só duas vezes. mas eu gostei muito.



e ah! uma coisa que eu acho bem engraçada sobre ursos, apesar de isso não ser culpa deles at all, é que seu formato geralmente comporta potes de mel. as abelhas que deviam estar lá, dando formato ao pote...
mas não. são os ursos.
não sei o que isso quer dizer.
talvez muita gente goste deles. =]
que bom que vc soube descrever.