1.5.10

hoje de manhã eu tava andando no maravilhoso bairro de higienópolis e tava um dia bonito e ensolarado, tinha muita gente saudável e equilibrada caminhando com trajes esportivos e informais, com a família, sem a família, mas assim, dessa maneira agradavelmente saudável e equilibrada, o que fez eu me sentir nada-agradavelmente a escória do universo voltando pra casa de manhã com a roupa que eu tinha usado ontem à noite e meus pés se afogando nas botas encharcadas de cerveja, mas tudo bem, eu pensei, vamos tornar esse passeio agradável, ainda que não saudável e equilibrado, e fiz isso da seguinte maneira: coloquei meus fones de ouvido e escutei uma música bonita e feliz.

depois minha vó me chamou pra tomar um sorvete, e a gente entrou e saiu do prédio umas quatro vezes, porque ela tá velhinha e cada vez esquecia uma coisa diferente. além disso a gente foi conversando e ela me contou as mesmas histórias que já me contou muitas outras vezes, mas eu sempre escuto e me pronuncio como se fosse a primeira vez que ela tivesse contando, porque nesses revivals da história pessoal dela ela sempre acaba lembrando de uma história que ainda não tinha me contado e que costuma ser ainda mais incrível que todas as outras histórias incríveis que a minha vó me conta várias vezes.

dessa vez, enquanto eu ouvia pela décima sexta vez que ela e meu vô eram primos (não de sangue, mas porque o irmão de não-sei-quem casou com a irmã de não-sei-quem e turns out que meu vô e minha vó acabaram sendo cousins-in-law e foi graças a isso que eles se conheceram flertaram namoraram casaram tiveram filhos e aqui estou eu) ela lembrou de que quando a paquera avançou de nível, meu vô ia visitar a casa da minha vó e ficava lá conversando e quando o relógio batia 20h meu bisavô (pai da minha vó) começava a ficar muito estressado com a presença do meu vô lá e minha bisavó (mãe da minha vó) dizia pra ele se acalmar e deixar os jovens serem felizes, mesmo sabendo que depois das 20h não era horário adequado para um rapaz estar presente na casa de uma senhorita, mesmo que na presença da família inteira da tal senhorita - isso inclui meu bisavô, minha bisavó, minhas duas tias-avós malucas e um cachorro possivelmente insano. meu vô sim era um homem que amava.

na época da invasão russa, com meu bisavô na guerra, as únicas pessoas na casa eram minha bisavó e as três filhas: minha vó e as duas irmãs que viriam a ser minhas insanas tias-avós um dia. acontece que durante a noite os soldados russos dormiam nas casas dos cidadãos romenos. escolhiam uma casa e os donos precisavam receber, alimentar e oferecer cama pros soldados. uma noite dessas, eles bateram na porta da minha bisavó. quatro soldados russos iriam se alojar onde quatro moças moravam. durante o jantar, eles colocaram sobre a mesa uma garrafa de vodca, e minha bisavó não tinha nenhum tipo de autoridade pra proibir a bebedeira. depois de metade do conteúdo alcoólico ter ido embora, ela, como se de brincadeira, colocou a mão em cima da garrafa pra indicar que aquilo parava ali. os soldados ficaram calados por alguns segundos [nesse momento vocês precisam ficar tensos como ficaram naquela cena de inglorious basterds em que a shosanna está no restaurante com o hans landa e ele pede leite para ela, ou depois quando ele diz que tem mais uma pergunta pra fazer e a gente tem certeza que ele sabe que ela é a garota que escapou do massacre do início do filme], então todos riram e eles guardaram a garrafa. mas mesmo assim, just in case, minha bisavó dormiu no mesmo quarto que as filhas, com todos os móveis da casa colocados contra a porta.

3 comentários:

Nah Safo disse...

eu fiquei bem tensa, mesmo.

Ludmila . disse...

Que incrível, Mel... sua vó deve ter as melhores histórias.

Vitor Pio disse...

não terei o que contar para os meus netos.