9.8.10

30 days letter project

(day 11 — a deceased person you wish you could talk to)



vô,

essa carta devia ser uma carta-diário. eu devia te escrever um pouquinho cada dia, e quem sabe no fim de um ano eu ia ter dito tudo que se faz necessário. você era uma pessoa reservada, mas nunca fria, e como dita o manual do bom europeu do leste, não era muito afeito de demonstrações físicas de carinho. você não beijava a gente, nem abraçava, mas passava a mão no meu cabelo e me chamava de princesa. mas isso é totalmente irrelevante no contexto do universo que você representa pra mim.

eu lembro do dia que eu me formei no colégio, e eu lembro de ter pensado que a pessoa que estaria mais orgulhosa de mim seria você. enquanto toda a minha família me abraçou e tirou fotos, você provavelmente teria dito "muito bem, melzinha, agora espero você publicar seu livro" ou qualquer coisa muito imponente e digna do tipo. você não tava lá, assim como não estava no meu aniversário de 18 anos, mas tava no meu aniversário de 14 quando eu pedi de presente uma mochila da kipling que era a coisa da moda da época e era caríssima, e você comprou pra mim. eu lembro que todo sábado a gente parava no sp market antes de ir pro clube pra você passar na tabacaria e comprar o fumo do seu cachimbo (e eu lembro tão bem do cheiro desse fumo e lembro das suas calças com pequenos furinhos do fumo que caía do cachimbo enquanto você fumava que a vovó consertava e gritava com você porque você não prestava atenção), aí você levava a gente no mcdonalds; até que um dia você se rendeu e deixou eu comprar um sanduíche pra você. o quarteirão. e desde então você sempre comia o quarteirão e comprava um chopp em algum outro restaurante pra acompanhar. aí durante a semana às vezes eu ia almoçar no shopping com meus amigos e você sempre tava lá com seu chopp e seu quarteirão, sempre bem vestido, elegante, um empresário em horário de almoço. e você sempre se recusava a passar na frente nas filas mesmo tendo mais de 60 anos, você esperava sua vez como qualquer outra pessoa.

eu lembro de quando você já estava bem mal, quando quase não falava mais. antes eu te perguntava de livros e você me falava, me ensinava, me recomendava, levantava da sua poltrona e ia até sua biblioteca pegar algum livro empoeirado e mofado que achava que eu fosse gostar. depois eu ia até a biblioteca e escolhia um livro, perguntava "e esse, vô? é bom?" e tudo que você dizia era sim. sem informações sobre o autor ou sobre a história. depois disso você foi ficando pior, falando cada vez menos, andando cada vez menos, comendo cada vez menos. uma vez eu fui até o mcdonalds comprar um quarteirão pra você. você comeu as batatinhas lentamente, sem vontade, olhando pela janela sem dizer nada. nessa época você já não falava mais nada. não sei se você não tinha vontade de conversar porque sabia do que tava acontecendo, ou se simplesmente parou de falar como eventualmente foi parando de fazer as outras coisas básicas do dia-a-dia. mas você olhava pela janela, sem parar, sempre, e eu lembro de querer tanto saber o que você tava pensando. pra mim é impossível que a sua mente, a mente que guardou setes línguas impecavelmente, e as histórias de todos os livros que você leu, e 6 anos de faculdade de engenharia química e mais tanta coisa, é impossível que ela tenha simplesmente parado de funcionar junto com suas funções mecânicas. eu queria que você tivesse falado com a gente. eu sei que se você não falou é porque não queria dar o braço a torcer de que a doença tava te vencendo, de que pela primeira vez em quase 90 anos você não estava no controle, que o grande governador da nossa família tava sendo alimentado por uma sonda, sendo banhado pela sua esposa, sendo incentivado a caminhar da sala até o quarto pela mão de um enfermeiro; você nunca admitiria nada disso. mas eu queria saber se você tava triste, se tava com medo, se esperava alguma coisa depois, se se arrependia de qualquer coisa, se tinha sido feliz, se sentia saudade de alguém ou de algum momento, se olhava pela janela por desespero ou por tranqüilidade. se não comeu aquele quarteirão porque não tava com fome, porque nem tava mais sentindo o gosto, ou porque nem sequer se lembrava que pouco tempo atrás você adorava aquele sanduíche e comia diariamente.

eu lembro do dia que você morreu. eu anda dividia o quarto com a rô, e de madrugada eu lembro do telefone tocando e dos meus pais indo pra sua casa. depois eu lembro da minha irmã acordando desesperada porque a gente tava atrasada pra escola, e foi aí que a minha mãe entrou no quarto e disse que a gente não ia pra escola. a rô entrou embaixo do cobertor, acho que ela tava chorando. eu não chorei, eu liguei a tv e tava passando um show do morrissey que eu assisti enquanto me vestia. não parecia que você tinha morrido, eu não me sentia como se isso tivesse acontecendo. o tempo todo, desde a hora que eu acordei, até a hora que eu voltei pra casa depois de você ser enterrado, pareceu que era outra pessoa, alguém que eu não amava. parecia o funeral de alguém que eu conhecia e pro qual eu tinha ido porque socialmente as pessoas vão a funerais quando as pessoas morrem. meu pai também não chorou na frente daquelas pessoas, mas uma hora eu fui no banheiro do cemitério e ele tava lá chorando escondido. e à noite eu ouvi ele chorando enquanto tomava banho. mas nem quando eu ouvi meu pai chorar pareceu que você tinha morrido. nem quando eu fui visitar a minha vó e você não tava lá, parecia só que você tava no trabalho. então eu continuei sem chorar por algumas semanas.

aí um dia, não sei como nem por que, nem de que maneira isso se materializou na minha cabeça, mas nesse dia eu simplesmente soube. eu chorei no banho, escondido, e depois à noite inteira bem silenciosamente pra minha irmã não ouvir, e eu nunca contei pra ninguém isso até hoje. nunca contei que não chorei no dia que você morreu e nunca contei que chorei a noite toda quando meu cérebro finalmente percebeu que você tinha realmente morrido.

eu tento todo dia ser uma pessoa tão boa quanto você foi, mas acho que esse tipo de bondade vem com a gente quando a gente nasce, e eu posso me esforçar toda as horas da minha vida mas nunca vou ser tão naturalmente boa quanto você e nunca vou conhecer ninguém assim também. você é a única pessoa que eu conheci que nunca pediu nada em troca do que você fazia, nunca cobrou favores nem esfregou na cara de ninguém quanto você os ajudou. você nunca diminuiu ninguém por ter emprestado dinheiro ou tempo ou qualquer outra coisa. você nunca cobrou ações diferentes de gente que tinha agido injustamente com você. e acho que por isso ninguém nunca foi tão admirado quanto você. e nem tô falando de mim, tô falando de todo mundo que viveu com você por perto, seus amigos, colegas, familiares. todo mundo.

você foi uma pessoa única. e isso é clichê e previsível, mas acho mesmo que talvez você tenha sido a única pessoa única do mundo.

9 comentários:

mel disse...

a mais difícil

Nah Safo disse...

a mais bonita.

abcfleury disse...

qualquer coisa que eu comentar não vai ser real como a carta foi.

obrigado por compartilhar, melody.

Francisco disse...

Lindo. Sinto-me silly comentando o que quer que seja, meio que tainting it, ainda pra mais com uma coisa tão clichê, mas a verdade é cheguei ao fim com um nó na garganta. Hits very close to home...

Diogo disse...

Nossa muito bem expresso, principalmente na parte da demora em que a gente tem pra se tocar que a pessoa se foi e nunca mais poderemos fazer uma pergunta de como foi sua infância, seu primeiro amor. Sabe? essas curiosidades em que só terão respostas fantasiosas das nossas especulações. E para mim parece que essa curiosidade fica mais forte quando a pessoa é reservada.

Rodrigo Facchinetti disse...

não teve como chegar ao fim da carta sem um grande nó na garganta.

Vc acabou de descrever um episódio da minha historia. Mas comigo foi com outro parente, e quando a ficha caiu eu estava dentro de um onibus...rs Tragicômico.

Vitor Pio disse...

Quero ser excelente que nem o teu avô

Fabrício disse...

Eu estava no ultimo ano do colégio quando me aconteceu. Me disseram "Você chega mais inteiro ao fim da sua vida justamente quando percebe os pedaços de si mesmo que perdeu pelo caminho". E que, mesmo doido, dizer "eu te amo" - ainda que tardio - é um contentamento divino. É o soluço que aquece. Talvez eu devesse escrever uma certa carta também.

bgandolfo disse...

comecei a chorar na segunda linha. maravilhoso