12.11.10

gasping, but somehow still alive

outro dia postei aqui uma foto de uma raposinha bem vermelha bem peluda com um rabo bonito e comprido dormindo em cima de uma árvore, e agora de repente lembrei dessa foto e voltei aqui pra ver, e não sei bem o que é isso que eu senti. a foto é linda, mas a coitada da raposa tá dormindo em cima de uma árvore totalmente depenada então eu imagino que esteja frio pra caralho e eu não lembro de ter aprendido muito sobre o estilo de vida das raposas, mas o que eu sei é que o natural é elas dormirem no chão, em algum buraco, então pra ela estar em cima dessa árvore é porque devia estar inseguro pra caralho na porra do chão. eu não imagino que tipo de ameaças possam assustar uma raposa a ponto de ela sair do conforto do seu buraco quentinho pra ir dormir enroscada nuns galhos de uma árvore, mas porra, que dó que me deu. e ainda por cima alguém foi lá e jogou uma porra dum flash na cara da raposa, como se a vida dela já não estivesse torta o suficiente, como se ela não merecesse dormir em paz e no escuro em cima da árvore. e porra, não é isso que a nossa vida é o tempo todo? a gente não tá tempo todo lutando contra pequenas ameaças e se acomodando no desconforto de situações absurdas, mas mesmo assim não dá pra enxergar um pouco de beleza nisso tudo? o que aconteceu foi que a raposinha tão lindinha dormindo em cima da árvore passando frio e medo me fez pensar um pouco nesses paradoxos com os quais a gente lida all the time sem nem sequer perceber. quer dizer, a gente tem que se relacionar com um número incontável de pessoas que não significam absolutamente nada, mas elas tão lá, quer dizer, quem seria eu sem a atendente do mcdonalds, sem o cara emburrado que carregou meu bilhete único, sem o idiota da faculdade que me vendeu uma cerveja hoje, quer dizer, é possível mesmo a gente precisar e se utilizar dessas pessoas por quem a gente não sente nada? como é que todo mundo anda por aí achando isso normal? eu acho que isso que a gente faz, todas essas nossas pequenas ações, isso tudo é uma espécie de ato de heroísmo, cada um de nós um pequeno herói no nosso próprio universo que não significa nada pra mais ninguém, como que pode uma coisa dessas? como que pode eu ser uma heroína, eu, justo eu, sem capa, sem poder nenhum, totalmente imperfeita, eu mesma não acredito em mim, como que pode cada um de nós lutando contra nossas próprias inseguranças e arrependimentos e erros, como que pode a gente ser herói? 
e pior ainda, cara, essas pessoas que não conseguem ser seus próprios heróis e acabam elegendo alguém pra admirar e emular, quer dizer, quão vazia é uma pessoa dessas? imagina, eu tô por aí tentando ao máximo enxergar a mim mesma, descobrir dentro de mim o que quer que seja que faça de mim, mim; como que a gente aguenta uma pessoa que nem isso consegue fazer e quer sugar da gente isso que nem a gente mesmo tá vendo? quão difícil é ser agrádavel com essas pessoas, mas ao mesmo tempo quão complicado é abandoná-las por aí, justo elas, que mais do que ninguém precisam de uma certa orientação, só uma plaquinha indicando um caminhozinho “seu eu está praquele lado” - como que a gente indica pra alguém como achar algo que a gente nunca deixa de procurar em nós mesmos? é possível ser sempre polido e bondoso com pessoas assim? eu acho que é natural sempre chegar a um ponto em que a gente acaba sendo horrível, mas a gente é horrível precisamente porque a gente se importa, pelo menos o suficiente pra fazer a pessoa parar de tentar emular uma coisa que ela nunca vai ser e achar qualquer coisa que viva dentro dela mesma. alguém mais notou isso? que a gente pode ser horrendo e insensível porque a gente se importa tanto com alguém?
como que pode isso? eu sei lá, eu só sei que de repente achei um absurdo tudo isso, e também como algumas pessoas provocam e machucam só pra ter a certeza de que o outro vai continuar ali do lado, e como a gente pode gostar e odiar ao mesmo tempo, how is this even possible? como que a gente anda por aí absorvendo todos esses paradoxos como se isso fosse normal?
eu não sei, mas a gente anda, a gente convive; e acho que no fim das contas é isso que faz de nós o que a gente é, a maneira pessoal de cada um de achar um pouco de paz em todas essas contradições, mesmo que a gente não veja, não perceba e não sinta dentro de nós que a gente é isso aí, esse amontoado de contradições que serve pra confundir nossas escolhas e decisões mas também serve pra definir o que nossas escolhas e decisões fazem de nós.

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