16.11.10

o problema com a palavra amor

inspirado em dois poemas do drummond, esse e esse)
às vezes parece que a vida se alimenta dela mesma. a gente anda por aí tropeçando em outras pessoas e é sempre a vez de alguém gostar mais do que o outro, mas eu não tinha idéia de que meu coração era capaz de passar por tudo que passou. a vida se alimentando dela mesma, das coisas que a gente vive, memórias comendo outras memórias, fogo apagando coisas, chuva apagando fogo e também muito do que eu escolho não ter mais, e ainda assim eu consigo acordar todo dia e lembrar quem é que eu estou amando dessa vez. é normal sentir tanto? a gente apanha e amolece, enche de novo, de esperança e sonho e tontura daquelas que é gostoso sentir e aí parece que meu coração só tá tirando uma sonequinha, que nem um gato esticado no sofá, uma sonequinha enquanto tá apaixonado por você, uma sonequinha bem burra e sonolenta e morna, e não importa quantas vezes eu, você, todo nós, sejamos fodidos por outras pessoas, e nosso coração cheio de esperanças e sonhos e vontades e amor por alguém seja despedaçado em tantos pedacinhos quanto há grãos de areia, e já que estamos no mérito dos clichês, não importa quantas vezes isso aconteça, sempre vai aparecer alguém um dia e vai ser que nem uma onda do mar levando todos os grãozinhos embora e é impossível não voltar a sentir essa coisa engraçada que cresce dentro nem sei da onde, e só de olhar pra você meu coração pula que nem criança que comeu açucar demais; a questão é que nunca pára de doer, nunca fica óbvio, sempre tem aquele nervosismo por trás de tudo e aqueles dedos cruzados torcendo pra que a outra pessoa também se sinta do mesmo jeito. todo mundo já partiu corações, todo mundo já teve o coração partido. o controle de danos é isso, e o grande problema é a gente se exaltar com a sensação, quer dizer, a palavra amor é densa demais, difícil de ser absorvida, ela deve ser guardada até o último instante, aquele momento em que é totalmente impossível segurar mais, quando parece que ela virou aquilo que a gente quis desde a pré-escola quando a gente ainda tinha problemas pra conseguir manusear uma tesoura, mas se eu não posso dizê-la como eu faço você entender? que eu quero você quase mais do que minhas mãos querem as suas e que eu posso estar aqui amando você com a mesma naturalidade que eu uso pra escovar os dentes todo dia de manhã, é isso que você é dentro de mim, a gente nunca sabe direito como amar ou o que fazer com o amor, mas como eu demonstro sem usar essa palavra? como eu digo com clareza e sem exagero? eu amo você.

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