26.12.10

maitê

no bat mitzvah da maitê eu tinha 14 anos, ela me chamou pra acender uma das velas, e eu fiquei lá, do lado dos pais dela, e de algum professor, e de algumas pessoas que eu não conhecia, com uma chama na mão. eu era a melhor amiga. 

a gente ficava no quarto dela escutando beach boys até adormecer, uma vez a gente foi pra ilhabela, outra vez a gente foi prum cruzeiro, e a gente foi pra londres também. e também milhares de fins-de-semana a gente dormiu no chalé da minha vó no clube, e de noite a gente não sentia sono e enrolava os lençóis no nosso corpo e então nós éramos princesas, irmãs, e a gente passava por mil conflitos e brigas e traições mas no fim acabava tudo bem, ou acabava com a minha vó chegando e dando uma bronca porque a gente arrastou os lençóis pelo chão inteiro, onde já se viu. e no dia seguinte a gente ia pra piscina e então nós éramos sereias, irmãs, ou melhores amigas, e mais mil brigas e conflitos e traições e no fim acabava tudo bem ou acabava com a gente sofrendo dos ombros e nariz vermelhos vermelhos vermelhos ardendo e depois a gente descascava e começava tudo de novo.

uma vez em londres a gente foi pra uma festa da escola que a gente estudava e a festa tava horrível, então a gente saiu e comprou uma pizza no domino’s e todo mundo que trabalhava lá era brasileiro, foi engraçado, e depois a gente saiu correndo com aquela pizza engordurada porque o metrô ia fechar. no metrô tinha uma beggar e a gente, mais ninguém, e ela começou a conversar com a gente “you girls look like you’ve had a good evening out”, não era verdade, mas no fim das contas a gente tinha se divertido, eu e a maitê sempre dávamos um jeito de nos divertir, então a gente só respondeu “yeah..” e a moça continuou conversando com a gente, eu não lembro mais o que ela disse mas lembro de ter ficado tão impressionada com a inteligência dela, com tudo que ela sabia, e fiquei pensando por que raios essa mulher tá na rua pedindo esmola, londres era um lugar tão estranho. no metrô tinha tanta gente, e era tão fácil, até as bombas explodirem e eles fecharem metade das linhas, aí ficou um pouquinho mais complicado, e eu não conseguia de jeito nenhum entender as linhas de ônibus então continuei usando o metrô; depois das bombas ele esvaziou consideravelmente, um dia depois das bombas eu já tava no metrô de novo, na minha cabeça o metrô era o lugar mais seguro pra se estar um dia depois de haver sofrido um ataque terrorista. nenhum terrorista ia colocar bombas de novo lá, no metrô vazio. aí eu demorava mais tempo pra chegar nos lugares, porque muitas estações e linhas não tavam funcionando, mas eu não pegava os ônibus, não entendia pra onde eles iam.

depois disso tudo eu não sei bem o que aconteceu, eu entrei na faculdade, terminei meu primeiro namoro, a maitê foi pra frança, nós crescemos, eu mudei, a maitê ficou alta, eu perdi todos meus amigos da escola e a maitê continuou com os dela, nossas mães ainda são muito amigas e quando a gente se vê a gente ainda conversa mas alguma coisa tá diferente de um jeito que não dá mais pra mudar, pra trespassar, eu queria saber onde que tá a sereia que eu era na piscina com a maitê, é dela que eu sinto falta.

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