4.4.11

o problema com a palavra amor

Quando eu tinha sete anos perguntei pra minha mãe por que Deus tinha me feito com tantos defeitos. É claro que a compreensão que eu tinha de mim mesma era pequena o suficiente para que eu conseguisse encaixá-la na idéia simples de que um deus havia me projetado daquela maneira e me colocado no mundo com todos esses defeitos tão claros em mim e impossíveis de enxergar nos outros. Eu também não sabia ainda que não acreditava em Deus.
Na quarta-série a escola anunciou que haveriam aulas de catequese para os alunos interessados. Eu me interessei do mesmo jeito que já tinha me interessado por aulas de balé, teclado, inglês, equitação, tênis, vôlei, natação. Minha mãe me matriculou nas aulas de catequese e não se surpreendeu quando três meses depois eu desisti e a professora ligou pra casa tentando resgatar “uma das mais promissoras ovelhas que havia se perdido do rebanho”. 
Durante esses três meses eu li um dos livros mais esteticamente interessantes da minha vida, presente do meu avô, uma bíblia ilustrada, capa dura, impressa naquele papel abrilhantado elegante, com notas de rodapé sobre história e fatos culturais sobre os povos retratados. A professora de catequese disse que eu ia precisar de uma bíblia regular, não de um resumo dela.
Outra coisa que eu fiz durante esses três meses foi rezar antes de dormir, pedindo pra que aquele deus sobre o qual eu estava aprendendo me livrasse dos meus defeitos, me fizesse mais bonita, menos tímida, melhor nos esportes.
Por algum tempo eu fui unidimensional o suficiente para enxergar apenas como defeitos o que na verdade eram particularidades minhas, pequenos detalhes que já faziam de mim o que eu era e o que eu viria a ser. Quão difícil é para uma criança se enxergar em contraste com os outros e se ver distinta em oposição a só defeituosa?
Para cada comentário feito sobre algum traço especificamente meu, físico ou de personalidade, eu aumentava em um item minha lista de defeitos.

Nenhum comentário: