17.1.13

eu criei uma lista de coisas que eu gostaria que fossem superadas nesse século (sim, meu deadline é grande, pra todo mundo conseguir superar bem direitinho). não tá completa ainda, e não tem ordem de prioridade, mas mais ou menos, até agora, é essa:

- woody allen
- zooey deschannel
- síndrome de 500 days of summer
- manic pixie dream girls
- misantropia
- menosprezo
- machismo
- homofobia

espero um dia falar de cada item separadamente, mas hoje falarei sobre o menosprezo, e talvez um tipo específico de menosprezo, mas eu gostaria que todo e qualquer menosprezo fosse superado.

eu já fui uma pessoa que menospreza. talvez eu ainda seja em alguns níveis, mas superar o menosprezo é uma coisa que tem que ser trabalhada continuamente, identificada na nossa personalidade e nas nossas ações e reações, e isso nem sempre é fácil. enfim, eu, um dia, fui uma garota que menosprezava muito. eu menosprezava quem não tinha lido certos livros, ou ouvido certas bandas, ou quem já tinha ouvido certas bandas mas preferia ouvir outras coisas que eu também menosprezava, eu menosprezava quem usava "coisas da moda" porque na minha opinião de menosprezadora, essas pessoas não tinham personalidade própria e estavam a mercê do consumismo e da massificação dos gostos pessoais.... eu menosprezava pra caralho.

o problema de menosprezar não é ter sua opinião sobre o que você gosta e o que você não gosta, o  problema é que quando você menospreza você está assumindo, afirmando, que o que você gosta é, cientificamente, ou artisticamente, ou qualitativamente, melhor, maior, mais digno de algum modo do que tudo aquilo que você menospreza. e sejamos sinceros: quem sou eu pra listar o que é mais digno ou não? quem somos nós pra dizer que o gosto de outra pessoa é intelectualmente ou culturamente mais baixo que o nosso? de que tipo de cultura a gente tá falando quando pensa desse jeito? quem somos nós pra dar mais ou menos valor a qualquer produto cultural?

thankfully eu entrei numa faculdade onde eu tive que conviver com todo o tipo de gente, vindo de todos os backgrounds financeiros, culturais, educacionais, etc. e aprendi que menosprezar não é bacana. menosprezar é se privar de conhecer a fundo alguém que é potencialmente awesome só porque a pessoa em questão nunca leu fitzgerald. nunca ouviu smiths. nunca assistiu nada do truffaut. ou menosprezar é perder a chance de conhecer aquela banda lá que é na real muito legal e que você nunca ouviu porque é banda do momento e você só escuta bandas obscuras inglesas.

faz algum tempo eu escrevi um texto sobre isso, porque durante essa minha fase do menosprezo, eu enterrei alguns gostos meus, aquele que a gente chama de guilty pleasures, porque, né, não pegava bem gostar de algumas coisas. mas depois eu decidi pensar que esses pleasures não precisam ser guilty, e que não só de intelectualismo vive uma pessoa como eu. aí eu escrevi um texto que fez muito sucesso entre meus amigos e amigos de amigos, e esse texto era sobre meu amor por britney spears e justin timberlake, e meu primeiro parágrafo era um warning para pessoas que ainda não tinham saído da fase do menosprezo, algo do tipo, se você é desse jeito [insira aqui lista de características de pessoas menosprezadoras] nem leia esse texto. e ele foi bem centrado nessa coisa da música pop e como dá pra amar de paixão dr. dog e destiny's child ao mesmo tempo, e não precisa desligar o scrobling do lastfm cada vez que você escuta lady gaga e essas coisas. mas hoje eu queria dar um enfoque diferente nessa idéia, por causa de dois fatores.

um é esse texto que uma amiga minha postou no facebook, e o outro é a notícia da bolsa cultura que ia ser distribuida para a população que não tem acesso a cultura pelos motivos que forem (não entrarei nesse mérito). não consegui achar a notícia que eu li originalmente, mas o ponto é que ela estava cheia de comentários dizendo coisas do tipo "esse bolsa cultura não pode ser dado em dinheiro porque a pessoa vai gastar em show de sertanejo, não em cultura de verdade". tipo, sério, gente?

sério que tem gente, e quando eu digo gente eu quero dizer um número significativo de pessoas, que acredita mesmo nisso? que acha que é bacana fazer um comentário desse? que acha que é correto e normal dar pitaco no que os outros vão gastar o seu bolsa cultura? sério que tem gente que não acha que acesso a qualquer tipo de cultura é válido e, mais que isso, essencial?

é muito fácil fazer um comentário desses quando você é essa parcela legalzona da sociedade que tem os meios e as possibilidades de acessar qualquer coisa. que pode pesquisar artistas do jazz e decidir, particularmente, que gosta mais de miles davies do que de calipso. mas tem gente que não tem esses meios. e tem gente que tem e mesmo assim prefere ouvir chiclete com banana do que pink floyd. e a questão aqui é que se você é alguém que escuta no rádio o michel teló, e gosta de cantar junto e dançar a coreografia, mas não tem grana pra comprar um cd ou um computador e baixar as músicas, então você passa o dia ouvindo no rádio, que é seu único meio, e aí de repente o governo disponibiliza 50 reais pra você gastar com show, cinema, museu, livro, e você não vai gastar indo no show do michel teló porque alguém decidiu que michel teló não é cultura, e que você só pode gastar esses 50 reais em exposição no mis ou em show do bourbon street?

quem somos nós pra decidir que cultura as outras pessoas podem ou não consumir? quem é esse tipo de cidadão que se acha no direito de menosprezar algo que é, sim, representação cultural de uma parte da população, que comunica, sim, alguma coisa a um número enorme de pessoas, que é, sim, resultado de fatores culturais históricos e sociais, quem sou eu pra negar isso a alguém? pra fazer careta e falar que deviam dar ingresso pra assistirem crime e castigo no teatro e não dinheiro pra gastarem com o que quiserem? quem somos nós, gente? é sério que a gente pensa assim e tem coragem de externar esse tipo de pensamento?

é sério isso???

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