19.2.13

acabei de assistir o episódio 5 da segunda temporada de girls e tô com sentimentos tão embaralhados quanto a ele que não sabia o que fazer então decidi vir aqui falar um pouco.

mas não sei falar do que exatamente.

na verdade numa primeira camada assim achei o  episódio meio chato, como todo episódio centrado somente na hannah (aquele que ela vai pra cidade natal foi o que eu mais odiei na primeira temporada), porque o que eu gosto mesmo é a interação entre as personagens, a simbiose assim que existe e com a qual dá pra se identificar tanto, muito mais do que com a história pessoal de cada uma. mas ao mesmo tempo a hannah é tão todas nós, né, ela é esquisita e ela nunca sabe quando vai menstruar então as calcinhas dela tem todas manchas esquisitas, e o fato de ela falar isso me faz sentir tão ela, tão parte daquilo, que é difícil não gostar dela e não ser um pouco ela, mas eu só acho que às vezes ela é caricata e exagerada nessa questão da every girl, aí eu paro de ser ela e passo a odiar ela um pouco, e é por isso que não gosto dos episódios que são só sobre ela.

e é por isso que a princípio não gostei do episódio 5 da segunda temporada.

mas tem um outra coisa nesse episódio, que vai muito além da hannah e do jeito caricatural que ela tem, e o que eu gostei muito nesse episódio é que em vinte minutinhos ele explorou tão bem a questão da conexão que pode existir entre as pessoas, ou que a gente gostaria que existisse, ou que a gente finge existir às vezes só pra conseguir continuar fazendo isso que a gente tem que fazer todo dia sem parar, que eu nem sei direito o que é, mas que a gente tem que fazer e faz.

a questão é que o que eu senti nesse episódio é aquilo que a gente tenta tanto ter por aí, a gente tenta tanto, que às vezes acha que nem tá tentando, a gente acha que tá fazendo mesmo, a gente acredita que aquela amizade é a amizade do jeito que a amizade ideal é, que vai durar pra sempre, que aquela amiga é a nossa confidente até o infinito e o nosso amor vai ser imutável até que os dias acabem e um dia a gente acorda com saudade e a pessoa não tá com saudade e sem nem perceber aquela amizade não é mais amizade, nem sequer um resquício sobrou e com o é que isso aconteceu? e aí você acordou e percebeu isso e tem um grande buraco bem no meio do seu peito assim e um grande ponto de interrogação flutuando na sua cabeça e você tem até vergonha de encontrar aquela amiga por aí porque ela vai ver o seu buraco e seu ponto de interrogação e você não quer que ela veja nada disso, e pode ser que ela também tenha um buraco e um ponto de interrogação e você nunca vai ver nem saber porque você tá aqui tentando esconder tudo, ou pode ser que ela não tenha nada, que tenha sido fácil assim mesmo e aí é até melhor ficar escondendo porque ninguém gosta de ser vulnerável na frente de quem continuou o caminho assim tão fácil.

mas o episódio não é sobre amizades, apesar de ele ter me feito ter esse grande pensamento sobre como as relações que a gente cria às vezes são só a gente querendo muito não parecer tão sozinhos, e amizade me pareceu ser o melhor tipo de relação para exemplificar o que eu pensei, mas isso serve pras relações românticas também, que é na verdade o foco do episódio, e eu não sei bem o que foi, se foram as cores da fotografia ou o jeito que a música foi usada, mas esse episódio acertou bem em cheio em algum ponto que é muito difícil de colocar em palavras, e aí de repente eu gostei muito dele e não achei mais chato.

e claro que não é do jeito que aconteceu no episódio, não é em algumas horas (embora às vezes seja, mas a maioria de nós é esperto o suficiente pra não deixar transparecer que isso pode acontecer em algumas horas porque aí é se colocar demais numa posição de fragilidade), mas acontece isso, né? acontece da gente de repente se ver envolta numa ligação muito louca que surge do nada espontaneamente e a gente quer só se deixar levar, e a gente faz isso, e parece que a outra pessoa também tá, e não só parece, ela tá mesmo, só que aí no momento seguinte, não, a pessoa não tá sentindo nada disso, na verdade, de repente surge um abismo monstruoso e você pensa como raios eu não vi esse abismo antes? porque não é possível que ele não tivesse ali, e a sensação é bem aquela nas cenas finais mesmo, a gente sozinha numa casa comendo a torrada de outra pessoa, encostando nas coisas da outra pessoa, lendo o jornal da outra pessoa, com todas essas evidências de que existe outra pessoa ali, mas na verdade essa outra pessoa é só outra pessoa e essas coisas todas, essa torrada, esse jornal, isso é tudo que você vai ter da outra pessoa. e quão triste é isso?

e eu sei que a idéia em girls era mostrar a solidão de uma menina em relação a um grande potencial romântico, mas eu senti me acertar bem em cheio mesmo na questão das amizades, porque no fim é meio que a mesma coisa, né? acordar de manhã e ver que você tem umas coisas que representam uma grande amizade mas a grande amizade mesmo foi criação da sua cabeça (e pode não ter sido, por ter sido sim uma grande amizade, mas nesse momento do buraco mo peito e do ponto de interrogação em cima da cabeça, nesse momento parece ter sido uma grande invenção) e você se sente triste por ter perdido aquilo, mas ou mesmo tempo idiota e com raiva de ter sequer achado que aquilo existia, que a sua amiga realmente se importou com o que você dizia, e com o quanto ela significa na sua não-solidão.

e ao mesmo tempo de repente eu me senti bem, e agradecida, e feliz de ter amigas ainda comigo, independente da distâcia que a vida acaba estabelecendo, e que elas ainda significam muito na minha não-solidão, e também apareceu uma pequena esperançazinha de que uma ou outra daquelas outras amigas ainda voltarão a ser o que eram, que isso tudo é só uma pausa necessária porque de vez em quando as coisas precisam de pausas; e também me senti cheia de carinho pelo meu relacionamento, e que o meu amor encontrou um lugar bom pra descansar e que eu tenho um namorado que é atencioso e amoroso comigo em todos os níveis e que nossas brigas sempre se resolvem, e que a gente se faz rir e se faz entender e se faz amar e como é bom ter ele e ter amigas, e que eu possa conversar com ele e com minhas amigas sem me sentir fraca, e que às vezes eu posso achar e dizer que tem alguma coisa quebrada dentro de mim e eu não vou acordar no momento seguinte rodeada das coisas das outras pessoas mas sem essas outras pessoas e com uma música mecancólica tocando na minha vida.

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