22.5.13

a fail to kiss is a fail to cope

das coisas que eu nunca vou falar aqui nem hoje, nem pra sempre, amém.

i said "honey i don't feel so good,
don't feel justified
come on, put a little love here in my void"
he said "it's all in your head" and i said
"so is everything"
but he didn't get it

(e depois eu me peguei pensando nessa coisa da tristeza e do que me deixa triste e de como eu fiz esse pacto comigo mesma pra não escrever sobre isso, só sobre os tais good feelings, mesmo que no fim das contas esse blog fique parecendo um grande apunhalado de textos de auto-ajuda, o que vale é o que essa proposta significa pra mim mesma - por mais que eu goste que outras pessoas leiam e achem legal, afinal, é um blog público - e não o que vai significar literariamente para os outros; acabei chegando a conclusão de que mais importante do que não escrever sobre a tristeza é não me deixar levar por certos sentimentos, não ser absorvida pelos momentos incômodos e tristes e solitários, e isso sim é que é difícil. é difícil escalar, sozinha, daquela situação onde você se sente desamparado, sozinho, inútil, pra o degrauzinho em que talvez esses sentimentos pareçam só uma expressão momentânea e fútil de como você reage infantilmente a certas atitudes/situações/problemas. e também como é difícil achar aquele local exato em que você consegue enxergar que parte do seus bad feelings são essas infantilizações mimadas mas que uma outra parte deve ser considerada e repensada e que nem tudo que você sente é oco ou raso, por mais que dure pouco. no fim da contas tudo que a gente sente, bom ou ruim, é só uma reação hormonal/biológica/sei lá, nada é palpável mesmo, tá tudo só na nossa cabeça, mas se a gente for mesmo pensar assim o que é que nós vamos levar a sério? o que é que nós vamos considerar na construção das nossas personalidades senão as coisas que nos deixam felizes e as coisas que nos deixam tristes? os estímulos que nos motivam e os estímulos que nos fazem ficar na cama embaixo do edredom pra sempre?)

na verdade eu tenho pensado muito sobre tudo que constitui a minha vida, e queria escrever, mas existe um vão tão grande entre pensar e escrever, às vezes, é um negócio surpreendente. por mais que se escreva fluidamente como se pensa, sempre sai não exato, sempre há aquela vontade de consertar, acrescentar, subtrair, sei lá, e quanto mais se trabalha o que se pensou mais distante fica da idéia original, acho uma coisa de louco isso, acho mesmo.

mas é que eu tô lendo esse livro do murakami que é um universo todo especial e fantasioso, com essa máscara de cotidiano qualquer, e tem um momento em que um personagem reflete sobre o processo pelo qual ele passa para escrever, e eu só conseguia pensar em como eu não faço nada daquilo, como meu processo é outro (pra não dizer completamente inexistente) e por uns segundos eu fiquei muito triste, porque na verdade eu não escrevo, eu só transcrevo o que eu penso, são duas coisas bem diferentes, mas depois a tristeza passou porque pelo menos eu tenho a oportunidade de exercitar a escrita, mesmo que mal, e mais que isso, eu posso tentar criar uma certa lógica compreensível pro que eu penso, transformar em algo que outros talvez possam/queiram ler e se identificar, ou discordar, ou o que for.

e depois eu passei pro nível seguinte que foi tentar entender porque essa passagem do livro me deixou triste, e eu acho que foi porque tocou numa coisa que eu gosto de fazer e me fez confrontar com o fato de que eu talvez não seja boa numa coisa que eu realmente gosto de fazer, ou talvez que eu já tenha sido boa mas deixei atrofiar por falta de prática, de uso, de testar técnicas, etc. depois eu pensei nas razões pelas quais eu tinha parado de fazer algo se eu não tinha parado de gostar de fazer esse algo, quer dizer, sobre o que eu costumava escrever tanto? sobre as tristezas, claro, mas também sobre coisas que eu via/pensava andando de ônibus (que foi trocado completamente pelo carro nos últimos dois anos), e antes de dar aulas in-company, o que me dava a oportunidade de passear, ver gente, lugares, coisas, e enfim, toda uma mudança na minha rotina que me fez não ter mais contato com coisas que me inspiravam e fez escrever realmente virar um exercício ao invés de um movimento natural. e aí eu me perguntei: por que isso é ruim? não é ruim ter que me esforçar mais pra transformar o que eu penso em algo escrito. não é ruim ter um trabalho maior para criar idéias para escrever. é bom, significa colocar meu cérebro pra funcionar de verdade, significa exercitar um músculo, significa trabalhar minhas idéias, nada disso é ruim. ruim mesmo é essa preguiça toda que faz a gente só gostar do que é simples.

então eu resolvi parar de culpar minha rotina e passei a culpar a mim mesma, que, né, sou responsável por tudo que eu faço. e pra variar eu não tenho conclusão nem moral, e nem sequer escrevi sobre o que eu queria escrever mesmo, que é minha decisão de tentar não escrever sobre a tristeza do jeito que ela surge no meu corpo, mas tentar transformá-la em algo que me faça aprender mais sobre mim mesma. e também continuar o foco nos good feelings, já que é meu trabalho e de mais ninguém fazer com que eles tenham predominância maior na minha vida e na minha mente, e foda-se se é literatura ruim, foda-se se é auto-ajuda, foda-se que eu nunca serei uma grande escritora contemporânea da língua portuguesa - eu não tenho história nenhuma pra contar além da minha, e isso pode não criar arte, mas cria uma boa auto-reflexão que é uma coisa que todo mundo precisa de vez em quando.

Nenhum comentário: