22.6.13

will you still love me when i'm 64

esses dias fui almoçar com a minha vó na casa de uma amiga dela. needless to say, as véia contam as mesmas histórias dia após dia - minha vó revive todas as aventuras da vida dela cada vez que eu telefono pra dizer um oi (e, ó, a mulher teve aventura viu. fugiu do nazismo, do comunismo, morou em 4 países, foi rica, perdeu tudo, foi rica, perdeu tudo, foi rica, perdeu tudo, etc etc), e a amiga dela com a qual almoçamos participou de muitas delas, e agora que os dois maridos se foram elas encontram uma na outra uma imagem do passado lindo que tiveram e desdobram nas conversas cada momentinho mínimo que representou alguma diversão pras duas quando elas eram jovens.

a amiga da minha vó tá perdidaça da cabeça, não consegue lembrar do que foi dito há menos de cinco minutos (a neta dela ligou em algum momento do almoço e ela disse que estava almoçando com a minha vó e "uma amiga" - isso depois da minha vó dizer seis vezes quem eu era), mas lembra em detalhes quase absurdos as viagens que fez com a minha vó, os almoços em família, as festas com os amigos, tudo mesmo.

mas eu não vim aqui pra falar de envelhecer ou do que isso pode fazer com nossas cabeças. o que eu achei incrível, incrível mesmo, foi a amizade das duas. juro, teve uns momentos que fiquei pensando "como é possível uma amizade resistir quase 60 anos?". a todo o momento a amiga da minha vó segurava a mão dela, se entrelaçava nos braços, minha vó era tipo um lugar familiar e seguro na tempestade de esquecimento na qual ela se encontra, e foi tão bonito saber que mesmo depois de velhas, as amigas ainda podem ser isso, essa figura pra quem a gente vira e em quem a gente se segura quando tá caindo - mesmo quando a queda já não tem mais volta.

aí eu me perguntei se quando eu tiver oitenta e tantos anos e tiver mais gagá que o batman eu terei essa amiga que vai vir até minha casa almoçar comigo e eu vou poder segurar a mão dela e lembrar que eu ainda sei quem eu sou e que ela tá lá pra me ajudar com isso. e, porra, i sure hope so. porque eu tenho o equivalente disso da juventude. eu tenho as amigas que imprimem trabalho da faculdade de última hora pra mim, as que me escutam no telefone e me ajudam a me acalmar e pensar direito, as que vão de cotia até a zona sul de são paulo me socorrer no meio da madrugada, as que transformam qualquer noitinha em buteco na diversão mais memorável da face da terra, as que ficam sabendo que eu tava mal por meio de outras amigas e mandam mensagem me desejando bem e querendo ajudar, e não é possível que uma delas não esteja lá segurando minha mão e me lembrando do nosso passado awesome quando eu tiver noventa anos.

amigues, quando a gente tiver noventa anos espero poder reler isso aqui e falar "porra, pode crer".

(porque é sério gente, num mundo onde as meninas são incentivadas a se odiarem e puxarem o tapete uma das outras, numa sociedade onde a amizade entre mulheres é sempre retratada como falsa e mantida por fios muito frágeis, é bom saber que não tem nada a ver isso aí, que as minhas amigas são minhas, mesmo, hoje, amanhã e quando precisar, que eu as amo mesmo sem cinismo ou dissimulação, bem como era a amizade da hannah e da marnie no começo de girls - e que assim como a amizade delas, algumas das minhas podem balançar de vez em quando, coisas acontecem e a gente se distancia, mas isso é característica da vida e não de nenhum suposto simulacro feminino que isso aí é tudo invenção, e eu acredito que a hannah e a marnie vão voltar a ser amigas pra sempre de verdade verdadeira, assim como acredito que as minhas amigas das quais eu estou ligeiramente afastada hoje vão ter a chance de se reaproximar, e eu me reaproximar delas, e amizade é isso, não significa se ligar todo dia e andar de braços dados pelas ruas, mas estar sempre presente aqui nesse cantinho da minha memória que eu reservei praquelas pessoas que devem e vão estar perto de mim sempre, haja o que houver amém)


(isso é pra mari, pra juju, pra paty, pra nah, pra úrsula, pra bel, pra tati, pra ludi, pra nádia, pra bibi:
eu amo vocês, migs!)

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