21.8.13

compare the best of their days with the worst of your days

existem mil e uma maneiras de cultivar o mau-humor.

uma delas é ter que exercer alguma atividade no trabalho que não é realmente sua função ou o motivo para o qual você aceitou aquele emprego. eu, por exemplo, sou professora, e nada me deixa mais irritada, mais querendo me matar, mais odiando não ser milionária e amiga da lalá rudge, do que quando eu tenho que ficar fazendo trabalho de secretária (que na verdade tá mais pra telemarketing) ou coisas do tipo ficar colando etiquetinha em livro, recortando papel rascunho, eu sei lá, essas coisas todas. acontece que contratualmente, embora eu não tenha estudado pra isso nem goste de fazer isso, eu preciso fazer esse tipo de trabalho de vez em quando. então eu acabo o dia cansada, estressada e triste, mas no fim das contas eu aceitei isso quando aceitei o emprego. e no fim, meu trabalho é meu trabalho, ele me irrita às vezes, sim, porque né, é meu trabalho, mas ao mesmo tempo ele é apenas meu trabalho e não representa o que eu sou ou como eu vivo a minha vida, ele é apenas minha fonte de renda para viver minha vida, então eu não deixo esse tipo de chateação me influenciar demais, além do necessário e inevitável. cheguei em casa, cabô, posso ler, escrever, ficar de pijama, brincar com minhas cachorras e me rodear de coisas inspiradoras e interessantes.

mas tem uns outros mau-humores. que vem das partes da minha vida que eu escolhi para mim que estão além do escopo da minha responsabilidade no emprego; são partes da minha vida que representam, sim, o que eu sou e como eu vivo minha vida, e esse mau-humor é complicado de trabalhar. é idiota, às vezes, parece que um comentário bobo, um pitaco desnecessário, uma ação aparentemente insignificante tem um poder absurdo de fazer eu querer entrar na cama e ficar lá isolada do universo inteiro pra sempre, de nunca mais botar a cara pra fora do meu quarto, aquela tristeza que parece que nem sequer um livro mais pode me resgatar, vontade de ser uma massa cinzenta sem forma ou consciência até o fim dos tempos. não é o mau-humor do trabalho, que é só trabalho. é uma tristeza triste mesmo, que não devia ser assim, porque também é causada por elementos externos, mas elementos tão importantes e relevantes que têm um efeito devastador incomensurável magnânimo absoluto. porque dá pra perceber as intenções reais por trás do que te causou a tristeza, tipo, não é que o comentário bobo te deixou triste, mas é porque você conseguiu notar que por trás do comentário bobo tinha uma série de julgamentos sobre o que você é e como você lida com as suas coisas e, sério gente, quem liga pra como eu lido com as minhas coisas? que diferença faz pra qualquer um além de mim, que não sou casada, não tenho filhos, sustento a mim mesma e às minhas cachorras (e nem elas que precisam de mim pra viver tão lá se importando muito com como eu gerencio minha vida, quédizê...)? e além de tudo, que diferença faz o julgamento de alguém sobre como eu lido com algum aspecto da minha vida, sendo que se eu tivesse lidado diferente eu estaria exatamente no mesmo lugar agora, vivendo do mesmo jeito e fazendo a mesma coisa?

então, é, um lembrete pra todo mundo (e pra mim mesma), eu sei que a gente às vezes não segura alguns comentários, algumas perguntas, alguns pitacos, mas cara, vamo tá tomando cuidado? vamo tá pensando se o nosso julgamento sobre outrem não tá claramente óbvio nos nossos comentários e, mais que isso, vamo tá tomando cuidado pra não magoar as pessoas queridas da nossa vida em prol de "make a point" sobre como elas tão cuidando da própria vida, especialmente se não estiver afetando ninguém próximo negativamente?

quando eu tava trabalhando como professora assistente na pré-escola, na hora de fazer o círculo a professora "principal" da sala sempre falava assim pros aluninhos: "keep your hands to yourself!". que tal?

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