23.10.13

qual é a dessa mania geral de conectar coisas que não tem conexão nenhuma?

outro dia minha mãe se mostrou extremamente incrédula quanto ao caso dos bolivianos escravos da zara, luigi bertolli, etc, porque segundo ela, incomoda demais ser grande no brasil, e as pessoas vão inventar o que puderem para derrubar os que tem sucesso. além disso, continuou ela, naquele tipo de tom sábio que só uma mãe sabe impor, eu sou ingênua e acredito em tudo o que eu leio, nunca passei por perrengue na mão "deles" (o incrível e assustador coletivo indefinido), e ela já teve empregada doméstica a processando por motivos dos mais absurdos, inclusive dizendo pro advogado que havia apanhado enquanto a serviço de minha mãe. então eu não devia acreditar em tudo que "eles" dizem, porque "eles" inventam de tudo para se sair bem. se por um lado eu entendo a sentimento de injustiça de ter um empregado seu mentindo a seu respeito (eu lembro especificamente dessa empregada que a processou: ela roubou coisas da nossa casa, coisas minhas inclusive, e olha que eu era uma criancinha), não vejo como alguém pode pegar uma situação de merda pontual - já que houve muitas outras empregadas em casa e essa foi a única com a qual minha mãe teve problemas - e estender a situação às escalas multinacionais da escravidão nas indústrias da moda. não vejo a conexão, mas minha mãe vê, embora não tenha sabido demonstrar logicamente onde as coisas se juntam.

meu pai o tempo todo afirma que tem ralado como um condenado enquanto os pacientes que ele atende - no SUS, que fique claro - tem dinheiro pra descer pra praia todo fim de semana, mas pra pagar médico não. eles, vejam só!, usam no ouvido aquele trequinho de bluetooth que - como pode! - meu pai nem tem, e pior ainda, o bluetooth no ouvido está conectado a algum celular touch de última geração - mas pagar o médico que é bom, ninguém quer. olha, eu não duvido que meu pai rale como um condenado, mas tenhamos bom senso: quem de nós não está ralando como um condenado? agora o que eu queria entender mesmo, de verdade, é que diferença faria para o meu pai se houvesse alguma taxa para usar o serviço do SUS, afinal, ele já tem um salário que eu duvido que mudaria. e também queria saber qual é a do bluetooth na orelha, que não é nada que meu pai não possa comprar, e não entendo como meu pai, que mora na casa que mora, tem os carros que tem, teve na vida toda as oportunidades e privilégios que teve, pode achar que ele e apenas ele está ralando pra caralho enquanto as pessoas que ele atende se consultam no SUS porque não tem nada pra fazer e tem dinheiro sobrando pra comprar gadgets e viajar ao invés de pagar pelo médico.

enquanto isso, no mundo incrível da interwebs, as pessoas fazem uma conexão que parece óbvia pra muita gente, mas que eu juro que não consegui entender, entre a queda da usp no ranking de melhores universidades, a saída da pm do campus, e a greve dos estudantes, majoritariamente dos cursos de humanas. gente, por favor, me ajudem a entender como uma coisa está ligada a outra. porque não sei se minha lógica é falha, mas me parecem assuntos bem distintos uns dos outros. além do que, historicamente, as greves dos cursos de humanas sempre trouxeram benefícios à universidade, isso é inquestionável. e são os cursos de humanas que fazem da usp uma das melhores universidades do mundo, que sustentam a usp nesse ranking irrelevante aí, porque são os cursos de humana que não se deixam ser sucateados nem submetidos a interesses privados e mercadológicos - porque é isso que uma universidade deveria fazer.

fora isso, tem sido cada vez mais difícil sair da cama de manhã e encarar o dia, não porque os dias em si sejam tão horríveis, mas por algum motivo a perspectiva do dia por vir tem me deixado ligeiramente desesperada toda manhã.

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