8.12.13

cabei de ver um filme tão ruim, tão bosta, tão horrível, que nem queria escrever sobre isso, mas não consigo não o fazer.

a primeira coisa que eu acho que devia ficar clara pra todo mundo é que não se combate machismo com machismo, assim como não se combate racismo com racismo, ou homofobia com homofobia, ou também não funciona se a gente misturar e tentar combater machismo com racismo (alou, lily allen), ou homofobia com machismo (o que seria absurdo até para os mais ferrenhos comentadores de portais, espero), etc, ou seja, não se combate estereótipos sociais se utilizando de estereótipos sociais: se combate estereótipos discutindo-os, enxergando-se a si mesmo como parte potencial do problema em alguns casos (no meu, por exemplo, por ser branca e de classe média) e a partir daí discutindo o papel de quem é parte do problema na luta para o fim da problematização dos estereótipos sociais. daqui do lugar em que eu estou, o meu feminismo só funciona se eu enxergá-lo, a priori, como feminismo privilegiado e privilegiador, que costuma não incluir mulheres negras, pobres, imigrantes, etc. eu preciso enxergar isso se eu quiser entender qual é o problema da mulher de verdade. da mesma maneira, eu preciso me ver como branca e socialmente e historicamente opressora se quiser entender meu papel na luta contra o racismo. do mesmo jeito que preciso me entender hétero e co-participante da heteronormatividade vigente - e também preciso saber o que é heteronormatividade e quais são seus problemas - para saber onde eu entro na luta contra a homofobia. and so on and so forth. (fique uma pausa aqui pra constatar que corretores ortográficos não sabem o que é heteronormatividade e isso já diz tanta coisa).

enfim, isso foi só um rambling pra que se entenda que machismo vem de diversas formas, e no mundo do cinema ele está presente de uma maneira bem sutil, às vezes imperceptível, e por isso mesmo pouco discutida ou comentada. eu queria falar agora de toda a coisa da manic pixie dream girl, que é um jeito indie e bonitinho de objetificar personagens femininas cinematográficas, porque, veja bem, elas não são abusadas pelo protagonista homem, elas costumam ser mulheres independentes, que falam coisas que nenhuma outra menina disse antes,  de um jeito charmoso hipster que o cara principal nunca tinha visto antes, elas não tem papas nas línguas, elas tem um gosto musical impecável, os problemas e dificuldades que elas tiveram na vida antes de encontrar o protagonista só servem pra que o charme delas seja mais atraente, pra que elas sejam mais interessantes, pra que elas possam ajudar melhor o protagonista a enxergar a si mesmo e mudar o que quer que esteja errado na vida dele. e é aí que entra a sutileza sexista do cinema: quantas mulheres de filmes são personagens completas, que existem por si próprias e não em relação ao protagonista homem? (sim, estou falando aqui basicamente de comédias românticas, e mais especificamente ainda de comédias românticas indies - 500 days of summer, garden state, ruby sparks, todas essas - porque nas comédias românticas mainstream é bem claro o papel da personagem feminina, mas nas comédias indies eles tentam disfarçar, porque é claro que uma personagem que ouve smiths não pode servir apenas para a iluminação do cara, ela é tão espertinha e bem humorada!).

o que acontece é que no fim das contas, a manic pixie dream girl também é uma objetificação, também é um ideal feminino que dentro do universo desses filmes serve para que o cara consiga alcançar alguma mudança significativa em sua própria vida. a pixie dream girl nunca muda ao decorrer da história - ela é o pivô da mudança do homem. que enxerga nela todas as possibilidades de uma vida sem as amarras sociais das mulheres que ele conhecia antes. a pixie dream girl é tão incompleta quanto as supostas mulheres de antes. a diferença é que ela conhece os bootlegs do wilco. mas ela continua sendo apenas uma ferramenta para que ele, e apenas ele, compreenda seu próprio papel na vida e como melhor desempenhá-lo.

enfim, tudo isso porque eu acabei de ver um filme tão ruim que chega a ser pior do que essa formulinha das comédias românticas indies, e olha que é com o estrelinha galã indie, joseph gordon sei la o que (que não apenas estrela, mas também escreveu e dirigiu o filme). eu acho que a intenção do filme era chegar a uma conclusão do tipo "viu gente, que besteira ser machista e aceitar e viver os estereótipos do papel do homem e da mulher num relacionamento" mas. que. tiro. pela. culatra. o filme basicamente reforça todos os estereótipos de casal que existem, deixando bem claro que existe um tipo de mulher que se porta dessa maneira (a tal da mulher gostosa perfeita loira carnuda whatever que vai querer mudar tudo no cara, fazer ele parar de ver os amigos, achar pornografia nojento, enrolar pra dar e aí ser uma bosta na cama, etc), e outro tipo, aquela pra quem normalmente os caras não olham, mas que não vê problema em falar de pornografia, discutir sexo, tirar sarro dela mesma e falar honestamente sobre assuntos profundos - e é essa que vai fazer o cara ser um cara melhor. não porque ela seja inteligente, divertida, multifacetada. simplesmente porque ela é o tipo de mulher que ajuda o cara a enxergar a si mesmo. enquanto a outra, a loira gostosa, é o tipo de mulher que só enxerga a ela mesma. dá pra entender o problema dessa dicotomia? uma visão machista foi trocada por outra visão tão machista quanto, apenas repaginada. enquadra as mulheres em dois estereótipos objetificados, e também enquadra o cara num tipo de homem que só vê bunda e peito e precisa mudar de algum jeito - encontrando a moça certa. então, ao tentar criticar o relacionamento estereotipado, ele só o reforça. só que parece que não, porque agora ele tem uma namorada "moderna" que não tem medo ou vergonha de falar sobre as coisas. mas ela ainda serviu pra mudar ele de algum jeito. e ele ainda a vê como a solução para um estilo de vida que não o satisfazia mais. ela ainda é uma ferramente da mudança dele. e olha, se ia chegar nesse ponto mesmo, eu podia ter ficado sem os 90 minutos de vômito machista escroto que foi o resto do filme; uma comédia romântica bonitinha com trilha sonora indie pelo menos iria satisfazer meu cérebro amortecido pela estética cinematográfica linear hollywoodiana, e, né, ia ter música boa.

isso tudo ficou muito confuso, eu só precisava registrar mesmo.

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