25.4.14

a normalidade da violência

(escrevi esse texto para a obvious, totalmente inspirada por esse post aqui)


Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói.

machado de assis escreveu esse parágrafo em 1906, na introdução de seu conto pai contra mãe, texto lembrado e revisitado sempre que dá-se uma ocasião de violência normalizada por uma parcela significativa (em número ou em classe) da sociedade. os recentes casos dos "justiceiros" que espancam, humilham e expõem jovens (normalmente pobres e negros) para castigá-los por crimes que supostamente cometeram são situações em que o texto machadiano se mostra atual, atemporal, e tristemente real.

a violência contra a mulher é recebida com a mesma normalidade com que outras violências foram no passado: num país onde uma mulher de saia curta está pedindo para ser assediada - e adicionando que o equívoco nos números de uma pesquisa não fazem dessa realidade menos relevante - uma capa como essa da placar não deveria causar espanto a ninguém. e provavelmente não vai.

esse homem, na capa dessa revista, é a evidência midiática, cultural e social de que o apelo de um homem merece circular em publicações mainstream e de alcance gigantesco, enquanto o sofrimento não apenas de eliza, mas de milhões de outras mulheres vítimas diárias de violência - doméstica ou não - é abafado, colocado em segundo plano, transformado em obstáculo que impede um jogador de futebol de fazer o trabalho para o qual ele foi treinado.

essa capa me entristece, assim como a pesquisa da ipea já havia me entristecido, mas é só reflexo da normalidade da situação da mulher no brasil, país em que problemas como machismo e racismo são considerados meros efeitos colaterais de uma época passada, situações isoladas que não representam o estado social do país.

a tristeza de que, como mulher, eu estarei sempre nas letras pequenas embaixo da grande foto do assediador, do assassino, do criminoso me pegou despreparada à vista da capa da placar - mas é a tristeza resignada da consciência de que essa é a sociedade em que eu vivo, em que tantas mulheres vivem, e todas elas, como eu, se resignarão à tristeza da foto desse homem nas bancas e seguirão caladas pelo pensamento social de que uma mulher violentada é só um número numa pesquisa.

Alguém falou em um comentário sobre essa capa que a equipe da revista foi “corajosa”. Por coragem, eu entendo o ato de ir contra a normalidade, o ato de fissurar o sistema, não de apoiá-lo, complementá-lo, confirmá-lo. Eu entenderia como corajosa uma edição da Placar que trouxesse as muitas e muitas mulheres que já foram vítimas de uma lógica perversa presente dentro do futebol (e outros esportes), onde o sexo feminino nem é mais tratado como coisa, já que as coisas têm algum valor. Coragem temos que ter nós, mulheres, para nos depararmos com esse rosto circulando nos meios de alta visibilidade. Coragem temos que ter nós, mulheres, quando colocamos os pés na rua. Coragem temos que ter nós, todas, todos, para não aceitar nunca que esse País continue dentro dessa normalidade. (fabiana moraes, socióloga e jornalista)

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