18.7.14

acometida por uma infecção que eu gosto de chamar de "satanás possuiu minha garganta" estou faz três dias em casa embaixo de cobertores vendo tv, e hoje eu decidi pelo menos mudar o fonte da inércia e vir curtir umas notícias virtuais. e também tentar escrever sobre meus revéses nas minhas curtas duas semanas de férias, mas isso fica pra depois (quando as memórias das férias forem mais bonitas do que o que realmente aconteceu)

aí a primeira coisa que eu li hoje foi esse texto magnífico sobre como a crítica literária trata ou menciona mulheres autoras confessionais. eu não sou uma ávida leitora de críticas literárias (nem críticas quaisquer, for that matter, nem de cinema, nem de música, nem de porra nenhuma), mas achei essa análise da crítica da literatura feminina bem relevante, e a primeira coisa que eu pensei é que eu li um livro inteiro do phillip roth de umas, o que?, mil e seiscentas páginas?, não sei, mas foi o que pareceu, dos mimimis dele com a mãe judia e dos problemas sexuais dele, e embora eu mal tenha conseguido aproveitar até o final (porque né, how much mimimi can one take), eu terminei, porque tinha ouvido tantas coisas boas sobre a genialidade desse livro, desse ~relato~, mas jamais jamais jamais tinha ouvido essa bíblia dos problemas de um pequeno rapaz judeu chamada de oversharing.

linkado na mesma página, eu achei esse outro texto magnífico sobre apropriação cultural do hip hop, e achei ele até mais relevante do que os textos de questlove sobre como o hip hop está destruindo a cultura negra americana, porque trata não de como os rappers que nasceram e cresceram dentro dessa cultura estão supostamente estragando-a, mas como uma exploração da significância do que é rap e hip hop e a linguagem e imagens que vem com a música por gente que não está inserida no contexto histórico da cultura negra pode foder tudo.

e aí, linkado na mesma página, eu vi esse título que me empolgou por demais por um segundo.

"I'm sorry for coining the phrase Manic Pixie Dream Girl"

sim, é indeed um texto do cara que criou esse termo uns anos atrás. e sim, ele está realmente se desculpando. naquelas, né.

veja bem. o primeiro texto que eu sugeri aqui foi escrito por uma mulher sobre a problemática de ser uma mulher escritora no mundo literário, e como esse mundo literário (que, sim, ainda é constituído primariamente por homens) vê o papel e as intensões de uma mulher escritora.

o segundo texto que eu sugeri foi escrito por uma mulher negra analisando as consequências para mulheres negras da apropriação por mulheres brancas de linguagem que não as pertence, não as representa, e além disso, sobre os malefícios dessa apropriação cultural para a significância e herança da cultura negra americana no geral.

e aí o terceiro texto, que eu não tô sugerindo, embora o título prometa tanta coisa incrível, foi escrito por esse cara, se desculpando. um cara que uns anos atrás criou um termo que nomeia a representação feminina no cinema americano desde sei lá, sempre, e agora tá se desculpando por ter criado esse termo.

veje bem.

uns anos atrás esse cara assistiu elizabethtown (um filme que eu amo, btw) e ficou maravilhado MARAVILHADO com a personagem da kirsten dunst, claire, e eu não o culpo porque a personagem é mesmo muito adorável, sem papas na língua, engraçada, alegre, bem humorada, inteligente, culta, TUDO DE BOM TDB.

aí ele pensou "preciso criar um termo pra esse tipo de personagem. mas pra criar o termo, eu preciso também descrever esse tipo de personagem, dã." e foi o que ele fez.

o tipo de personagem? aquela garota que parece saída de uma fantasia, que parece perfeitamente formulada para que o rapaz protagonista do filme enxergue a raiz de todos seus problemas dentro de si e, com a visão de vida dela, consiga superá-los e ser feliz. fim. os problemas que essa garota tem, ou teve, ou terá, são apenas contrapontos que a deixam ainda mais adorável, e o fato de que ela aparece no momento perfeito e some assim que seu trabalho foi feito é o que faz dela a mulher ideal.

nem vou me estender nesse tipo de personagem, porque tanto já foi dito. fato é que essa representação feminina no cinema é real, existe, e é maioria.

e que um cara vá lá e dê um nome fofo pra ela é apenas efeito colateral. it was bound to happen, cedo ou tarde.

aí, 7 anos depois, ele decide se desculpar por ter dado o nome fofo. porque 7 anos depois, o nome fofo tomou vida própria, de acordo com ele. foi usado inúmeras vezes em contextos em que não devia ter sido usado. foi utilizado à exaustão. virou um clichê.

em defesa do cara (porque né, eu sou benevolente), deve ser triste mesmo ver sua única ideia genial ser transformada em clichê pelo resto do mundo. hashtag chateado define.

enfim. no meio de um blablablá de mais de 10 parágrafos, as razões pelas quais ele se desculpa são:

1. uma vez, pouco depois dele lançar o termo, a editora do site resolveu publicar uma lista de todos os filmes que continham manic pixie dream girls (apenas todas as comédias românticas já escritas desde sei lá, billy wilder? just sayin'). aí ele pensou "opa, acho que tão levando isso longe demais". (é o que ele diz, gente, não é interpretação amarga minha não). um dos filmes na lista era annie hall, e a manic pixie dream girl era a própria personagem título, e a insatisfação dele quanto a isso é que woody allen baseou a personagem na própria diane keaton, que todos sabemos é uma mulher real complexa e esférica como todo ser humano deve ser. ORAS BOLAS onde já viu uma personagem feminina baseada numa mulher real que possa servir apenas para deixar feliz o protagonista da história? parece loucura mesmo.

2. uma vez ele assistiu uma peça chamada "manic pixie dreamland" sobre esse lugar mágico que fabrica: isso mesmo, manic pixie dream girls. quer dizer, ele é incapaz de compreender que ao criar um nome pro estereótipo de mulher cinematográfica perfeita, alguém tenha se aproveitado disso e imaginado uma fábrica de mulheres cinematográficas perfeitas. ONDE JÁ SE VIU.

3. nesse momento, além de perceber que ele tinha virado um one hit wonder da crítica cinematográfica, ele não reconhecia mais sua própria criação. (novamente, é o que ele diz, não sou eu sendo sarcástica de graça, até porque eu nem preciso, ele já fez todo o trabalho por mim). quédizê. novamente hashtag chateado pois só havia cunhado um termo cinematográfico de relevância em toda sua carreira, mas agora outras pessoas estavam usando o termo de maneiras que ele não queria que usassem!!!!! é muita tristeza pra um escritor só, né.

4. num ponto particularmente bonito ele diz que sabe que rótulos são redutivos, mas que na área dele, às vezes são um mal necessário. mas que por causa do efêmero e rápido mundo virtual a ideia generalizada da manic pixie dream girl foi mais uma criação da própria internet do que dele. então ele tá se desculpando pelo erro dos outros. de todos nós, utilizadores do incrível mundo da world wide web, que nos apoderamos de criações alheias e as transformamos em algo que elas não foram concebidas pra ser.

5. agora eu vou citar diretamente, gente, vocês concluam o que quiserem.
As is often the case in conversations about gender, or race, or class, or sexuality, things get cloudy and murky really quickly. I coined the phrase to call out cultural sexism and to make it harder for male writers to posit reductive, condescending male fantasies of ideal women as realistic characters. But I looked on queasily as the phrase was increasingly accused of being sexist itself

things get cloudy quickly??? i wanted to call out cultural sexism??? gente, dicona: procurem na interwebs o texto original e depois me digam se não é pra dar risada dessas desculpas por ter criado um pequeno monstro alimentado pelos outros. o inferno somos nós, darling.

6. a parte mais legal é quando ele diz que o john green declarou que devemos acabar com essa epidemia de manic pixie dream girls e nos focar em escrever personagens femininas complexas (vocês leram algum livro desse cara recentemente? ele É a fábrica de manic pixie dream girls da literatura adolescente, mas ok).

7. e a co-escritora e atriz do filme ruby sparks que, quando perguntada se a personagem era uma manic pixie dream girl, respondeu: essa é uma ideia misógina. o autor do termo usa esse momento pra se desculpar por ter criado um termo que pode ser usado de maneira misógina em contextos nos quais não necessariamente deveria ser usado de maneira misógina. (lembrando que:  filme se trata de um escritor melancólico triste solitário que escreve uma menina perfeita que o faria feliz e saltitante, aí ela cria vida e o faz feliz e saltitante até ele perceber que ela tem uns defeitozinhos e faz ela desaparecer, QUÉDIZÊ)

8. ele conclui se desculpando novamente por ter inventado um termo que faz parecer que personagens que nós amamos tanto pareçam ter sido criadas apenas para representar "a fantasia regressa de algum cara triste". e faz um apelo para que se possam escrever mulheres com uma vida interior rica, com autonomia, com nuances multidimensionais, que talvez queiram tocar ukeleles e dançar na chuva mesmo sem estar na presença de um homem. JURO QUE É ISSO QUE ELE ESCREVE, JURO MESMO, PODE LER LÁ.

sei lá, até perdi a fome um pouco. 
notem que ele não se desculpa por ter apreciado a construção feminina cinematográfica e dado um nome bonitinho e brilhante pra isso. ele se desculpa pelo que OS OUTROS FIZERAM COM O NOME QUE ELE INVENTOU. pro clichê feminino que OS OUTROS aceitaram e assimilaram como ok, não por ter dado um FUCKING NOME pro clichê feminino que ELE MESMO enxergou e aceitou e assimilou como ok.

afff mano, desisto. é muito mimimi num texto só, acho que até phillip roth me apoiaria nessa.

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