17.11.14

+ filmes

- the purge


o filme tem uma premissa interessante, de uma anarquia às avessas, e é um filme de terror divertido. no fórum do imdb tem umas discussões interessantes sobre a proposta da história e possíveis análises, fica a sugestão pra vocês.


- relatos salvages


quiçá o melhor filme do ano. os relatos selvagens do título são historietas da rotina de pessoas enjauladas num formato social que elas tem que aceitar, ao invés de compreender. o conto que abre o filme é absurdo e cômico, daquele tipo de humor que faz a gente rir de nervoso por enxergar a verossimilhança da loucura toda. a história protagonizada por ricardo darín lembra muito o clássico um dia de fúria, mas com uma frustração e uma violência mais elegantes, como se esperaria de um filme argentino. 

a violência retratada em todas as histórias é tão palpável, é aquele momento no qual a gente quase chega todo dia mas consegue se segurar; e esse filme relata o que aconteceria se a gente por acaso não conseguisse mais aguentar se dobrar de acordo com as etiquetas e regrinhas sociais, como é que seria se a gente se deixasse levar por esse instinto selvagem no qual nossa rotina cutuca todos os dias.

also: uma noiva raivosa que talvez seja melhor personagem feminina escrita em anos??? quer dizer, o que aconteceria se a beatrix kiddo vivesse no mundo das pessoas normais e não na mente louca do tarantino? ela seria a noiva desse filme. 




essa não seria uma lista de filmes digna de mim se não tivesse um filme ruim presente. mas cara, esse filme tem tudo que  alguém possa precisar: cantores a capela, competições universitárias, referências a breakfast club, romance, e amizades entre mulheres. also, uma variedade de personagens femininas que, ólia, dá gosto de ver. e, se isso tudo não for suficiente, uma competição free-style de cantoria a capela com uma versão de no diggity que vai te ~pegar de jeito~.


- interstellar - acho que esse texto contém tenebrosos ~~~***SPOILERS***~~~

olha. 
difícil.
o filme começa de um jeito quase brilhante. quase genial. pode até tirar o quase da minha frase, na verdade. a ideia de um futuro apocalíptico pós-apocalipse é sempre boa. pula perguntas irrelevantes do tipo "o que aconteceu?" "por que o mundo acabou/está acabando?" e vai direto pra parte intinteressante que é a adaptação humana quando o formato social ao qual nós estamos acostumados sofre um colapso. a ideia é de que o colapso vai acontecer, não importa quem tente impedir, e o ser humano só vai aprender sua lição depois da merda pegar o ventilador. quando já tiver tudo tão fodido que não tem mais volta. eu curto muito essa premissa.

o ritmo do filme é muito interessante também. a família que viva na fazenda, o pai frustrado por não fazer o que nasceu por fazer, os filhos - a geração seguinte - já acostumada com essa realidade sem conseguir imaginar algum outro tipo de vida. a vibe me lembrou muito sinais, na melancolia da vida em família, no reflexo dessa melancolia na plantação. (also, a dinâmica familiar é exatamente a mesma: a mãe que morreu em algum passado inexato, os dois filhos ligeiramente esquisitos mas relacionáveis, o pai "lobo solitário" e o segundo homem adulto, que foi parar dentro dessa família por motivos x mas é essencial para o funcionamento da dinâmica familiar)




also, os relatos dos velhinhos que ainda lembram da vida na terra, achei muito incrível. eles dão o tom histórico, eles deixam o filme um pouquinho mais relacionável, como todo relato oral deixa.

além disso, tem toda aquela vibe 2001 rolando, que deixa a coisa toda interessante. tá certo que não existe mais filme de viagem espacial sem 2001, quer dizer, todos eles fazem algum tipo de referência e seguem todo um formato que o kubrick basicamente inventou, mas interestelar em particular deixa muito clara a referência, é quase uma releitura de nolan da solidão do homem do espaço que o kubrick já tinha mostrado em seu filme. 

achei interessante que o robô tars, ao contrário do hal de kubrick, é 100% fiel à sua missão e às ordens que recebe dos humanos, contariando a ideia de que robôs superarão a raça humana um dia. para nolan, o mal e a ameaça ao sucesso de uma missão está nas mãos do humano, não da criatura inventada por ele. também interessante que o humano em questão, o que trai os colegas, o que mente, é destinado a um fim trágico, como que uma consequência, um castigo pela sua maldade (que vem acompanhada de uma certa dose de burrice e teimosia, em interestelar). já o resto dos personagens, que podem até cometer erros, mas sempre com intenções nobres, acabam tendo cada um sua recompensa distorcida. não quer dizer que eles terminem o filme felizes, mas eles sabem que estão cumprindo seu papel de maneira honrosa.

agora, do momento que eles decidem se jogar num buraco negro até o fim, o filme se perde em estilos diversos e explicações complicadas para que o expectador não tenha muito o que discutir (quanto menos a gente entende, menos perguntas faz, porque aceitamos o que nos é dado como verdade). a atmosfera melancólica que foi construída do começo até a metade do filme se perde, a interposição dos relatos dos velhinhos com a história familiar com a exploração espacial pára de existir (eu particularmente senti muita falta dos velhinhos a partir do meio do filme). parece que alguém esqueceu que eles tinham construído oda uma áurea e nos levado a sentir certos tipos de emoções e de repente decidiu confiar na magnitude de viagem no tempo e chances de recomeço para prender o expectador. 

não rolou.

além do que, aquele fim piegas, esperançoso, bem conivente com a ideia de que pessoa do mal se dá mal pessoa do bem se dá bem deixa BEM a desejar. é muito simples concluir uma história de mundo pós-apocalíptico retomando o formato social que tinha entrado em colapso. quer dizer, acho muito difícil acreditar que, tendo o atual formato social destruído o planeta e a raça humana, os humanos restantes voltem a confiar nesse mesmo formato pra reconstruir uma sociedade. me lembrou o que a juliana cunha fala em um texto sobre livros apocalípticos, mais especifícamente sobre o livro que deu origem ao filme the road: 

Vale a pena reconstruir o mundo a partir dos moldes pré-apocalipticos ou a insistência no tema do apocalipse seria uma tentativa da arte de capturar um desejo difuso por mudança em um mundo em que a mudança já não é vista como possível? Em mundo assim, um fator externo que viesse e mudasse as coisas à revelia dos seres humanos e não a partir da ação humana não seria uma espécie de desejo inconfessável da sociedade? Segundo Cazdyn, uma revolução acontece "no momento em que um novo conjunto de relações se estabelece no seio de um novo sistema". "The Road", assim como tantos outros livros recentes que tematizam o apocalipse, apresenta um acontecimento inesperado — o próprio fim do mundo como o conhecemos — mas não consegue dar o passo adiante, isto é, estabelecer novas relações e um novo sistema que paute a existência humana. O livro passa da falta de rumo do pai e do filho ao retrocesso ao antigo rumo tomado pelas sociedades ocidentais industrializadas, representado pela família nuclear.

acho que a mesma reflexão se aplica a interestelar.

mas o matthew mcconaughey está amazing as usual.

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