14.12.14

oh! you pretty things

trilha sonora sugerida:



existem duas experiências possíveis de compras.

uma delas é a experiência do carinho recebido.
é entrar numa loja que tem seu próprio perfume no ar, ser bem recebida por vendedoras simpáticas mas não invasivas, é enxergar familiaridade nas araras dividas por cores, experimentar as roupas num provador suficientemente espaçoso com um espelho que te faz parecer mais magra.

mas mais importante, chegar em casa com um pacote bonito, um monte de papel extra desperdiçado pra nossa fútil felicidade. abrir a caixa e encontrar a roupa dobrada, com etiqueta, tudo isso é essencial pro nosso emocional ficar satisfeito com a compra.





é o tipo de experiência que no geral as moças que gostam de passear em shoppings curtem. eu não curto shoppings, mas pra mim esse tipo de experiência acontece quando eu compro marcas mais artesanais que não tem um ponto de venda de fácil acesso (normalmente nem ponto de venda tem, as vendas são só online). eu curto a oportunidade de comprar em mãos um negócio que eu sei que é exclusivo, original, feito à mão e ainda tem todo esse packaging da compra carinhosa, da marca que te recebe com carinho.

é esse tipo de experiência que causou os compreensíveis delírios de becky bloom. é esse tipo de experiência na qual as meninas do man repeller querem que a gente acredite. era essa experiência que impulsionava carrie bradshaw a dar tanta importância pra moda. é isso que a miranda priestly vendia em sua revista.

a outra experiência é aquela do tesouro garimpado.

essa é pra quem não faz questão da experiência de venda manipulada. pra quem não se importa com loja perfumada, organização lógica, espaço, mas com a roupa em si. é a experiência pura de comprar uma roupa única. tão única que não tá sendo fabricada agora. aquela roupa que só da pra encontrar em brechó, em bazar de igreja, no baú da vó.

não tem glamour nenhum, a experiência por si. a ideia é se afundar em cabides e cabides de roupa velha, normalmente numa loja apertada que cheira a coisa guardada há tanto tempo que deve ser o cheiro do pó de arroz da maria antonieta.



mas o glamour vem depois. ah, se vem.

é o glamour de vestir a roupa, depois de lavada e passada, e sair se sabendo inimitável. não há chance de outras pessoas estarem vestindo - ou sequer terem no armário - essa peça de roupa que você veste.

quem gosta mesmo dessa experiência tem uma relação interessante com a roupa, de apreciar a história individual que uma peça carrega, de vestir em si histórias dos outros. é o que a gente vê no blog da ariel. é a pira do macklemore. é o que se propõe no new dress a day. é a experiência que o programa dresscue me queria retratar.

as duas experiências tratam a auto-estima de uma mulher como spa nenhum conseguiria. diria eu até como cirurgia plástica nenhuma pode fazer. é um boost instantâneo e rápido, embora eficaz, e é o efêmero da coisa toda que faz a gente querer sempre voltar à experiência de comprar coisas lindas das quais não precisamos funcionalmente.

e ainda que a experiência da compra por si só seja momentânea, ela é revisitada toda vez que a gente decide vestir a roupa comprada, cada vez que recriamos com aquela roupa uma imagem de nós mesmas, e ter as ferramentas e ideias para nos recriarmos esteticamente cada vez que fazemos uma escolha de vestuário é essencialmente incrível.

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