25.3.15

a mochila

eu era, nos terríveis idos tempos da adolescência, uma daquelas meninas que não tinha as coisas da moda num colégio em que ter coisas da moda era sua única forma de identidade.

eu não me importava muito porque no geral eu não queria as coisas da moda, eu queria só meu discman com um cd do morrissey dentro pra eu ouvir no recreio. eu queria delinear meus olhos que nem a anna karina e me vestir que nem a stevie nicks e dar risada das meninas uniformizadas (eu também tava uniformizada, porque o dresscode do meu colégio era a clássica calça de moletom azul marinho e a camiseta branca com o nome da escola estampado, tudo bem monótono como colégios particulares devem ser, mas eu quis dizer uniformizadas no sentido maior da palavra, de seguir uma moda padrão das coleguinhas, de querer estar incluso em um grupo através das roupas) (inclusive o protesto dos alunos pra terem o direito de cortar as barras das calças e golas das camisetas talvez tenha sido o movimento mais emocionante que envolveu os alunos da minha época) (não ganhamos o direito de customizar o uniforme, mas algum tempo depois os uniformes mudaram: agora vinham com a barra da calça já estilizada e a gola da camiseta mais larga) (os alunos continuaram personalizando os uniformes com tesouras, porque o que a gente queria era dar nosso toque pessoal, não golas mais largas), mas havia um item clássico da vestimenta colegial que eu simplesmente não podia ignorar. não dava pra ser blasé, pra fingir desinteresse.

a mochila era absolutamente necessária pra minha sobrevivência, pra que eu pudesse carregar o pesadíssimo material - pesado com tanto conhecimento, tanta coisa pra se aprender, todo um universo que podia ser meu estava dentro da mochila. uma mochila de colegial precisa ser resistente. os livros e cadernos são pesados, então o requisito básico é qualidade. é claro que sendo menina e sendo ~antenada~ eu queria algo que fosse esteticamente aprazível. todas as meninas queriam. não sei como tá o negócio hoje em dia, mas os meninos não pareciam se importar nem com qualidade nem com beleza, e as mochilas deles tinham alças rasgadas, zíperes que não abriam ou não fechavam, buracos, enfim, uma tristeza. as mochilas dos meninos também não pareciam conter tanto material valioso quanto a minha, mas talvez eu fosse só uma pequena ~cdf~ como se dizia na época.

além dos livros didáticos, uma mochila continha os equipamentos essenciais de um adolescente: o já mencionado discman, uma blusa pro frio, às vezes comida, e a partir de algum momento, o amado celular e seu jogo da cobrinha.

sendo invólucro de tais preciosos objetos, uma mochila era muito mais que uma mochila. o que havia dentro da mochila dizia a que grupo você pertencia - no meu caso, o de fãs de smiths e filmes franceses sem pé nem cabeça. mas a mochila em si, a mochila certa, a Mochila, essa dizia que você podia entrar em qualquer ambiente adolescente e ser respeitado.

eu queria esse respeito.

eu queria uma mochila da kipling.

uma mochila da kipling estava bem acima do poder aquisitivo de uma adolescente - ainda mais uma sem mesada, como eu. mas parecia estar dentro do poder aquisitivo dos pais dos meus colegas, porque de repente, de um dia pro outro, todos tinham uma. os meninos tinham um modelo quadradão horrível, e as meninas.... elas tinham a mais perfeita mochila da kipling já concebida por um designer de mochilas empregado nas empresas kipling.

era horrenda, amigos, como todos os produtos dessa marca. mas na minha visão teen ela era maravilhosa. divina. tudo que eu precisava pra ser realmente, totalmente, literalmente feliz. e meus pais não podiam se dar ao luxo de comprá-la pra mim.

na época eu tinha uma mochila hippie, dessas de camelô, com estampa colorida tipo peruana. eu era apaixonada por essa mochila, ela representava tudo que eu queria ser, e pra melhorar minha mãe tinha reforçado as alças e o fecho com couro, o que fazia dela única, hand made, exclusiva.

mas ela não era uma chave mestra pro mundo adolescente. also, ela tava caindo aos pedaços e eu ia precisar trocar eventualmente.

por um ano eu expressei meus desejos pubescentes de ter uma mochila da kipling. no meu aniversário, meu avô me deu, finalmente, o objeto de meus nada obscuros desejos.

no dia seguinte eu cheguei na escola e a atmosfera era outra. as meninas olhavam pra mim, portando uma kipling brand new, limpa, o chaveiro de macaquinho um recém nascido, e eu sentia a admiração. elas também tinham mochilas da kipling, mas a minha era nova. a minha se destacava.

durante as semanas seguintes eu caminhava portões da escola adentro com outra aura. a confiança que surgiu em mim foi algo que jamais tinha acontecido e nunca aconteceria de novo. eu sabia, com aquela mochila nas costas, que aquele território era meu, que aquele lugar pertencia a mim, que eu era não apenas uma igual entre tantos outros portadores de mochilas da kipling, mas melhor do eles, porque eu ainda era eu, com meu cd dos smiths, meu delineador, e minha franjona jane birkin. eu tinha a mochila da kipling, mas além dela eu tinha coisas que mais ninguém tinha, coisas que só eu podia compreender, coisas que faziam meu horizonte maior.

aquela mochila me fez uma deusa.

eu deixei de usar minha amada mochila da kipling - e qualquer mochila for that matter - faz alguns bons anos, mas ela ainda está lá, intacta (era feia, mas muito resistente), carregando agora as coisas de academia da minha mãe.

depois dessa mochila não houve nada que se comparasse. nada que eu tenha querido tanto e demorado tanto pra conseguir, nada que me fizesse entrar em algum estabelecimento completamente segura de quem eu sou e do meu lugar no mundo.

minha anto-confiança agora depende de outros fatores, está mais enraizada em mim, e eu não preciso mais de uma mochila kipling - ou de qualquer outro acessório que eu possa querer agora. agora meus acessórios são acessórios, complementos pra construção de uma imagem que me faz sentir confiante.

mas o jeito que essa mochila fez eu me sentir numa época em que eu tinha tantas dúvidas sobre mim mesma, acho que essa sensação valeu os milhares de reais que meu avô desembolsou pra satisfazer minha vontade consumista adolescente.











(para gi e sua mochila inflável)

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