12.3.15

acho que o grande problema do jornalismo de moda é que enquanto a moda como fenômeno social tem tanto a dizer, o que os sites e veículos publicam é essencialmente: a) fofoca; b) copy&paste de outros veículos maiores ou internacionais.

é um tal de promover coleção de não sei quem pra não sei qual marca, de publicar lançamento de não sei que loja, de repetir as mesmas informações alteradas e irrelevantes sobre as semanas de moda, de fazer listinha de erros da moda, erros da make, erros do cabelo, erros da unha, fazer listinha dos top 10 babados do red carpet, etc. e ainda por cima maquiar tudo com uma linguagem infantil e caricata, que só contribui pra visão superficial e burra que a moda continua a ter, mesmo com esse boom de interesse que tá rolando faz uns anos.

a verdade é que moda - moda mesmo, dessa que a gente vê no street style das semanas de moda, dessas que é produzida por gente louca e genial e polêmica, dessa que custa zilhões de dinheiros e que representa o poder de consumo de zero vírgula nada da população mundial - é um treco quase cômico de tão absurdo. porque realmente, a representatividade dessa moda na vida útil de bilhões de pessoas é nada. se a gente para pra pensar que a maior parte das pessoas desse planeta não tem condições financeiras ou culturais de entender e/ou usar a moda que fascina tanto a mídia, todo esse bafafá de semana de moda, de quem usou que vestido no tapete vermelho, de quem é a nova garota propaganda milionária da campanha milionária de alguma marca milionária, tudo isso parece mesmo uma grande piada.

quer dizer, essas roupas todas, essa circulação toda de mercadoria, essa compra e venda, esse processo todo de manufatura, elas não são nada, porque as roupas que as pessoas usam usam mesmo, de verdade, não são essas. e se a gente pára um minuto e realmente reflete sobre o assunto, quem é que perderia tempo real e sério pensando ou falando sobre moda?

essa é a visão mais ou menos que pessoas dos assuntos "sérios" tem sobre moda. moda é entretenimento.

não vou dizer que moda não seja ou não deva ser entretenimento, mas tomar a moda somente por isso é um erro rude. (mas se a gente passa a notar que na maioria dos sites, jornais e revistas, arte e entretenimento são tratadas como uma mesma categoria, dá pra entender da onde vem essa misconception).

porque, veja bem, economia, tanto quanto moda, é uma coisa que foi inventada pelo ser humano. a materialidade e importância universal do tema é exatamente a mesma: zero. é uma invenção. é construção social. não é uma força da natureza, não é eterno e infinito e claramente não vai durar pra sempre.

roupa é a mesma coisa.

então porque a gente trata um com uma seriedade total e o outro como fofoca da vizinha?

não vou responder essa pergunta porque não quero agora começar a falar do valor do papel masculino e feminino na sociedade, mas deixo essa reflexão pra vocês: por que será que assuntos que são tradicionalmente masculinos são tratados de maneira sóbria e assuntos que são tradicionalmente femininos, não? e por que será que certos assuntos foram escolhidos como tradicionalmente femininos e outros como tradicionalmente masculinos? fica a ideia de pesquisa pra crescimento intelectual pessoal de vocês. (lembrem-se que o futebol, tópico que eu acredito ser fundamentalmente pra entretenimento da galera, tem toda uma atenção especial nos veículos, e não é retratado de maneira infantilizada em praticamente nenhuma mídia. eu sei que tem mulher a valer que curte futebol, mas o assunto é, sim, socialmente, visto como masculino. já a moda, que entretém tanto quanto futebol, male male aparece em grandes veículos, e quando aparece as notas são curtas, rápidas e superficiais)

acredito que deveria ser responsabilidade dos sites e revistas especializados em moda se esforçar pra trazer a moda e tudo que ela evoca (celebridades? sim. cinema? fo shizzle. música? com certeza. problemas sociais como racismo, machismo, honofobia? hell yeah) para outro patamar. existe muito a ser dito, tanto da moda como entretenimento e diversão quanto da moda quanto termômetro social de mudanças, de status quo e de dogmas, e os grandes nomes do jornalismo de moda preferem revisitar o assunto da mesma maneira idiotizada, pequena, simples.

acho triste.

acho triste que existam equipes de redação que passam o dia procurando notícias que valham a pena ser copiadas - e muitas vezes, mal copiadas. acho deprê que existam redatores, escritores e jornalistas que passam dias escrevendo textos muito abaixo de seu potencial pra poder publicar em sites sem perder o ~estilo~ (mais para: falta de) do veículo. acho triste que esse tal estilo dos veículos de moda preze pela informação rasa e pela estética infantil de escrita e não pela produção de bons artigos que sejam realmente relevantes e tragam novas visões para a moda, que sejam prazerosos e interessantes tanto pra quem escreve quanto pra quem lê, e que dêem a sensação de que o leitor realmente absorveu algum tipo de informação, ao invés da sensação de ter sido bombardeado por milhares e milhares de textos e imagens sem objetivo algum de informar.

(queria pontuar aqui que é por isso que eu gosto tanto do manrepeller. as meninas conseguem trazer o lado entertaining e divertido da moda em muitos textos, sem essa coisa do copy&paste dos sites e blogs brasileiros - não só brasileiros inclusive -; e também conseguem dar opiniões bem articuladas e relevantes, discutir o papel da moda além da venda e do consumo, trazer referências e coisas que dão vontade de pesquisar mais, isso tudo sem esquecer o objetivo principal do site, que é vender roupa. also, elas não lotam a página de artigos e mais artigos diariamente, porque a gente precisa de tempo pra assimilar as coisas, queremos reler os textos e achar pontos dos quais discordamos e com os quais concordamos, coisa e tal. palmas pra essa judiazinha rhyca top que é a leandra medine)

(lembrei também desse texto, do ciclo de moda da baiacu - sdds baiacu - escrito pelo jorge wakabara, que acho que ilustra bem o problema do jornalismo de moda, e a solução dos veículos pra esse problema, que é exatamente essa solução da superficialidade e do consumo)

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