21.3.15

murakami não sabe escrever finais

nem eu.

acho até que murakami saiba escrever finais mas prefira não escrevê-los direito.

a questão com finais é que a gente sempre espera que um final seja uma conclusão. que se finalize um ciclo pra que outro comece.

aquela velha história da verossimilhança, e não da veracidade. mas a vida não tem verossimilhança. a vida é uma porra doida. a gente acha que as coisas tem começo, clímax e conclusão. a gente espera isso dos finais. a gente não espera que algo acabe e nada comece depois. a gente quer se sentir diferente, aquela sensação de término, de alívio, de troca de pele. não tem nada disso.

nas histórias do murakami sempre parece que algo grande está prestes a acontecer. sempre parece que uma grande epifania está a caminho, a epifania que vai permitir que um ciclo se feche e o próximo comece. a gente é levado pela sensibilidade do eu interior dos personagens, por uma solidão quase palpável, por um mundo que existe dentro da cabeça dessas pessoas, que estão vivendo momentos de apatia e mudança ao mesmo tempo, que precisam lutar pra entender seu lugar em suas próprias vidas. e no fim, nada.

nada acontece. não há epifania, não há ciclo, não há recomeço. em murakami, não há nada disso. nem metaforicamente. não existem metáforas o suficiente que traduzam a falta de sentido dos nossos caminhos. que expressem o nada que está sempre aguardando na esquina. murakami não escreve finais envolventes, mas ele envolve a gente na falta de significado de nossas próprias vidas.

eu nunca gostei de acreditar em ciclos. na minha formatura da faculdade não teve beca, chapéu louco, purpurina nem discurso, teve só eu assinando um papel e guardando um canhoto que dizia que em dois meses eu podia retirar meu diploma. a gente passa anos num emprego e quando sai é simplesmente pra ir pra outro. nenhum ciclo acaba, nenhum ciclo começa, a gente tá mesmo numa linha reta que vai levar a lugar nenhum. pensar nisso é deprimente, pode ser até desesperador. é por isso que a gente gosta de filmes, de livros, de peças de teatro: as coisas parecem fazer algum sentido, as coisas que acontecem levam a algum objetivo, que pode ser nobre ou não, mas o que acontece é que ele existe. ele representa algo.

mas o murakami não quer representações gratuitas. acho que é mesmo bem tolo, bem engraçado, bem coisa de um bicho doido que inventou economia, religião, sociedade, todas essas coisas que não significam nada mas a gente quer muito acreditar que signifiquem, é bem coisa desse bicho querer inventar significado pra fins.

não tem.

um fim não significa nada. um fim não é o recomeço de nada. a gente só continua, mudando o tempo todo, dando adeus a pessoas e lugares e coisas sem que isso precise representar nada. mas que é estranho é, quando a gente sente um fim chegando, a grande onda da mudança, e quando ele chega o que vem depois dele é.. espera. nada. o mesmo de antes. fica um ar de que tá faltando algo, de que não era pra ser assim, cadê a catarse, cadê a reviravolta, cadê a peripécia.

e é aí que murakami acerta: não tem catarse, nem reviravolta, nem peripécia. não tem nos livros porque não tem na vida, mas sabe o que tem? um constante aprendizado sobre a nossa maneira de lidar com o fim, de enxergar recomeços não como uma saída, não como um figurativo fechar de um livro para que outra história se inicie, mas como uma renovação mental, uma inteligência adquirida, um eterno respirar de ideias e opiniões e amores.

não há conclusões, nem grandes portas que se fecham pra que outras se abram, há apenas movimento, o tempo todo, de nossos corpos e mentes e sentimentos. não há finais a serem escritos porque não há finais.

ainda bem.


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