24.4.15

a moda é ridícula

isso todo mundo sabe.

mas o que torna a moda mais ridícula são as tentativas desesperadas e histéricas de não parecer ridícula.

porque a moda sabe muito bem que ela é ridícula.

a moda sabe que é uma das indústrias mais racistas que existem. a moda sabe que é uma indústria machista. a moda sabe que é uma indústria escravizadora, superficial, sem escrúpulos, que tira proveito de mulheres, crianças e homens em países da ásia, que não emprega nem vê como público alvo negros e não-brancos no geral, que se apropria do corpo feminino pra transformá-lo em produto.

aí em vez de combater esses problemas, a moda resolve transformá-los em espetáculo. então dá-lhe peruca de bombril na cabeça de modelo, negra gorda dançando break na passarela, e sei lá mas quanta merda. não adianta nada colocar negras gordas fazendo dança exótica pro público branco e não contratar negras, não ter negras como público alvo, não ter negras assistindo seu desfile. não adianta nada fazer campanha nos estados unidos com homem sikh no outdoor e não rever as políticas de produção das fábricas no oriente médio e resto da ásia - e continuar empregando pessoas nessas fábricas e regime semi-escravo em locais sem segurança em que as trabalhadoras morrem em incêndios ou soterradas. enfim. so on, so forth.

aí agora a onda é um tal de ~movimento das redes sociais~ chamado - RISOS - fashion revolution day. a ideia revolucionária consiste de pessoas postando em suas redes sociais fotos com as estiquetas das marcas aparecendo. REVOLUÇÃO, GENTE!!!! PAREM AS MÁQUINAS DO TRABALHO ESCRAVO DA INDÚSTRIA TÊXTIL QUE A REVOLUÇÃO CHEGOU!

junto com a foto de etiqueta aparecendo, a hashtag whomademyclothes, pra indicar pras marcas que nós temos consciência, que queremos saber quem fez nossas roupas.

gemt.

gemt.

migões e migonas: apenas parem.

comentei no post de alguém no facebook: muita pouca coisa revolucionária num movimento que pede pra gente fazer propaganda gratuita das marcas. nenhuma marca vai responder dizendo "é galera, a gente usa trabalho semi-escravo em bangladesh" ou "foi mal migs, a gente terceriza a produção e não fiscalizamos boshta nenhuma, deve ter sangue boliviano aí (o:"

discorro:

1. gente, não existe campanha de redes sociais, movimento de instagram ou hashtag que vise o bem social comum sei lá o que. é sempre marketing. sempre. envolveu marca e redes sociais, é marketing. acho incrivelmente absurdo que as pessoas ainda se recusem a enxergar o valor de nossas ações na internet pra publicidade das marcas.

2. gente, não existe campanha que te peça pra mostrar a etiqueta de alguma marca, ou fotografar o logo, ou postar o seu nome da latinha, que não seja marketing. novamente: envolveu marca, é marketing. desconstruam a ideia nas cabeças de vocês de que marcas são feitas de pessoas, pessoas são do bem, etc. marcas são representações de corporações. corporações são instituições do mal. não importa a campanha pra salvar elefantes, o projeto que doa sapatos na áfrica, a ong com a qual eles se ligam. é tudo: marketing. eu vou repetir isso diversas vezes porque talvez entre na cabeça de quem ainda não veja isso - do mesmo jeito que o marketing repetiu tantas vezes pra gente que existem empresas boas, empresas verdes, empresas com consciência social. não existe, mas eles te convenceram que sim. talvez eu convença alguém do contrário me utilizando do mesmo método ishcroto de lavagem cerebral.

não tem como, dentro do processo produtivo capitalista no qual estamos inseridos, uma empresa ser ~do bem~. empresas visam lucro, dinheiro, poder. elas conseguem tudo isso convencendo-nos a comprar seus produtos, e a gente ouve e compra.

mas, pequena mel, não dá pra sobreviver sem comprar produtos.

eu muito bem sei disso, meu bem. mas dá pra sobreviver sem lucros exorbitantemente desnecessários, opressão de povos, manutenção de valores sociais que excluem certos tipos de pessoas, direitos trabalhistas inexistentes, padronização da beleza européia, ridicularização de toda e qualquer pessoa que não se encaixe nos padrões, utilização à exaustão dos recursos naturais, violência sistêmica, leis que protegem os poderosos, etc etc etc.

só que as corporações não existem sem todas essas coisinhas chatas aí. e por mais que nós PRECISEMOS comprar certas coisas, cada vez que o fazemos estamos, sim, colaborando pra tudo isso.

ó, pequena mel, e como combater esse ciclo horroroso do qual eu faço parte sem nem ter me candidatado?

ólia......... difícil. a gente tá tão inserido no sistema, e ele funciona de maneira tão automatizada, que todas as opções de saída parecem extremamente exaustivas. mas o princípio mais importante, acho, é: compre diretamente de quem produz. é complicado, pra várias coisas simplesmente não dá, mas quando der, pro que der, essa é a opção mais real. compre suas frutinhas direto da fazenda que as planta, não no pão de açúcar. compre suas bijus do hipongo na rua, não da 25 de março. compre suas roupas de inciativas familiares que são responsáveis pelo processo inteiro de produção. etc. nada disso resolve o problema, mas é o que podemos fazer de dentro do próprio sistema.

a questão das roupas é ainda mais complicada, porque mesmo que eu compre o vestido daquela minha amiga que faz roupas a mão e vende na internet, da onde veio o tecido? quem produziu, quem tingiu, quem cortou, quem importou ou comercializou pelo país? a gente não sabe. e as chances desse tecido ter sido fabricado também em condições horrorosas é grande.

num sistema em que a divisão de trabalhos é tão recorrente, saber a origem real de um produto é dificílimo. e a origem dos produtos que a gente compra é tão sombria, tão horrenda, tão desumana, que a maioria das empresas faz de tudo pra que a gente nunca descubra.

você sabe da onde vieram os minérios necessários pro seu smart phone? a coisa é ISHCROTA, meus queridos. é uma linha de produção SUJA. esse nosso smart phone, que tanto facilita nossa vidinha de mierda, tem muito sangue nele. a gente paga pelo sangue de muita gente. e ninguém fala sobre isso. as empresas escondem, negam, dizem que estão melhorando. pfff.

com roupa é igual. as empresas não querem que a gente saiba, porque cara, é feio demais. pega mal demais, até pras corporações, que tão pouco se fodendo pra qualquer coisa que não seja dinheiro.

3. mesmo que você supere a etiqueta aparecendo nas redes sociais e queira saber, honestamente, quem faz suas roupas, há maneiras melhores e mais simples

tenho quase certeza que você não está usando um lacroix original, ou coisas do gênero, então o único jeito de você saber mesmo quem fez suas roupas é com a seguinte técnica avançada: procure no interior da roupa a outra etiqueta, aquela que a gente corta porque foda-se. nessa etiqueta estarão os misteriosos dizeres MADE IN ....................

surpresa, amiguinho! sua vestimenta foi produzida no país indicado aí. tcharam! tá escrito china, vietnam, bangladesh, taiwan, pakistan, qualquer país fora do eixo américa-europa? é trabalho escravo. não tem segredo, não tem discussão.

tá escrito brazil? aí a coisa é delicada. brazil pode ser que a marca tem uma fábrica própria, e nesse caso: THUMBS UP! as chances de ser trabalho escravo são mínimas (mas existem). na maioria dos casos as marcas terceirizam a produção pra fábricas alheias, que por sua vez maximizam a produção empregando bolivianos e outros imigrantes em regime escravo e em locações sem condições mínimas de trabalho. a fiscalização dessas empresas terceirizadas é mínima, e quando acontece irregularidades sempre são encontradas (são aqueles casos que saem nos jornais e na internet, TRABALHO ESCRAVO NA [INSIRA AQUI A LOJA QUE VOCÊ QUISER] É DESCOBERTO). o fato de notícias assim saírem só de vez em quando não significa que isso só aconteça de vez em quando.

tá escrito u.s.a., france, italy, países influentes no geral? parabéns, você comprou uma roupa que foi fabricada diretamente pela marca que consta na etiqueta, em países com regulamentação seríssima. você deve ter pago caro por essa peça de roupa. o que não quer dizer, já que estamos destrinchando tudo, que o material usado pra fazer sua roupa seja de origem ética. mas rastrear a origem de um tecido é bem mais difícil, não tem etiqueta, não tem made in, não tem nada.

aqui no brasil, teoricamente, pra uma etiqueta poder ter MADE IN BRASIL estampado, mais de 50% do material tem que ter origem brasileira, se não me engano. não sei a porcentagem exata, me desculpem amiguinhos, talvez seja bem mais de 50%, vou pesquisar. fato é que: a roupa não precisa ter sido 100% produzida aqui. os botões podem vir de fábricas na ásia em que crianças são escravizadas, por exemplo. ou o tecido pode ter sido tingido em fábricas com condições horríveis. ou a linha usada pra costurar tenha sido feita por moças que trabalham mais de 16 horas por dia sem poder ir ao banheiro.

enfim. é complexo. bem mais complexo que uma hashtag e uma selfie podem expor. e a problemática maior é: as marcas de roupa não vão falar sobre isso. as marcas não querem que nós saibamos. e as marcas fingem transparência e honestidade em ~movimentos de internet revolucionários~ como  o de hoje, em que a única revolução é que é a gente mesmo produzindo e postando publicidade nas nossas redes sociais.

2 comentários:

Nah Safo disse...

Orra. Post maneiro!

Não tinha parado pra pensar nisso da etiqueta. Vou rever todas as minhas etiquetas agora e continuar não fotografando nenhuma.

Anônimo disse...

não achei muito de boa