16.4.15

anedotas da semana de moda

parcialmente envolvida por um buzz de sono após apenas 4 horas dormidas essa noite e um buzz de magnum frutas vermelhas que é distribuído gratuitamente no espaço da spfw, resolvi achar um tempinho pra escrever minhas impressões sobre ~minha primeira vez~ nesse evento de moda tão claramente...................... brasileiro.

sei lá, não é como se eu tivesse frequentado semanas de moda internacionais, mas é que o jeitão da coisa me parece muito nosso jeitão de fazer coisas mesmo. toda uma impressão que o negócio podia ser incrível, mas não é.

quer dizer.

um evento que tem sorvete de graça. fucking open bar de magnum. tinha tudo pra dar certo.

só que tem umas coisinhas que pegam. que me incomodam. talvez seja birra minha, talvez eu seja uma chata que gosta de reclamar (obrigada papai por essa herança), mas talvez - só talvez - o problema da moda aqui em sp, e quiçá no brasil, seja querer ostentar algo que claramente não está lá. difícil.

a primeira coisa que eu achei desnecessária foi a geladeira cheia de garrafinhas de água. tá, eu sei que não tem água em sp mas duvido que em edições anteriores da spfw tenha sido diferente. a quantidade de lixo sendo criado dentro de uma sala de imprensa me dá FANIQUITO, amigos. não vou dizer que eu sou a pessoa mais amiga do meio ambiente que já pisou nessa terra, mas eu tento. não seria muito mais sustentável bebedouros, filtros de água, e já que o que pega nessa semana é promover marca, talvez alguma marca distribuindo garrafas reutilizáveis, incentivando produção menor de lixo plástico - lixo inclusive que nem pra reciclagem é enviado, porque os cestos de lixo são os mesmos pra lixo orgânico, reciclável ou não reciclável.

em tempos de falta de água, se uma geladeira cheia de garrafinhas de água é mesmo necessária, que tal uma coleta seletiva? QUE TAL, AMIGUINHOS DA MODA? mete os logos de marca nas lixeiras coloridas e vamos fazer nossa parte, sabe. que nós não estamos em tempos de ostentação vazia, de acumulo de lixo, de reprodução de mentalidade egoísta e consumista. até porque, a gente tá aqui pra consumir roupa. não garrafinha de plástico.

e essa é a questão. cadê a roupa nesse evento? nos desfiles, vocês me dirão, mas a roupa tá lá mesmo? tem coisa nova a ser consumida, a gente realmente fica com vontade de comprar as coisas que aparecem nas passarelas? não é tudo repetição, releitura, inspired - cópia?

tá lá naquela entrevista com a fran lebowitz - quanta coisa nova essa gente tá realmente produzindo? e se eles não tão produzindo coisa nova de verdade, vale mesmo a pena tanto alarde? tanto estrelismo? tanta histeria?

o que eu percebi nessa minha primeira semana inserida na fashion week paulista foi que a gente tá aqui pro espetáculo, não pra criação da roupa.

equipes e equipes alocadas pra fazer cobertura de backstage, por exemplo, com foco nas celebs. "10 dicas de maquiagens da modelo famosa tal". "dicas fitness das modelos direto do backstage". "como conseguir o cabelo da modela famosa ypsilon". "maquiador bafo das celebridades ensina a fazer o olho esfumado da marca fabulosa sei lá qual". cadê conteúdo de qualidade? não que aprender as maquiagens, cabelos e dicas fitness não seja válido, mas é só isso? uma semana em backstage pra falar sobre sombra de olho e esmalte? que tal perguntar pras modelos o que elas acham dos padrões de beleza femininos e como elas enxergam a contribuição delas pra esse padrão? como é trabalhar numa indústria que é majoritariamente voltada pro consumo feminino mas ainda continua a tratar a imagem da mulher como consumível, commodity, COISA?

aí as equipes alocadas pra cobrir a fila A dos desfiles produzem a mesma ladainha. não sei qual atriz global tirou selfie no desfile tal. apresentadora de canal x dá sua playlist pra malhar. modelo rhyca e famosa dá depoimento sobre gisele. não existe pauta realmente interessante pra se fazer na fila A? não sei, a marieta severo tava aqui, será que alguém fez uma matéria legal sobre a história dela na tv e no cinema brasileiros comcomentários sobre grandes figurinistas, o papel da moda na construção de um personagem, a visão dela sobre o retrato da mulher nas telas nacionais, estereótipos femininos embasados por figurinos de personagens, eu sei lá.

desfile que abriu com dança de índio - todo mundo filmou, todo mundo comentou, todo mundo achou fabuloso. alguém falou sobre o processo colonial que dizimou centenas senão milhares de culturas indígenas - processo colonial esse que deu origem a essa mesma indústria da moda que agora tá usando índio na passarela pra conseguir manchete? ah, mas eles vão doar os lucros pra organizações indígenas. que bonito. a gente se apropria da sua cultura - que nós mesmos destruímos e oprimimos durante séculos - e aí dá um dinheiro pra compensar. discussão sobre direitos indígenas, demarcação de terras, grandes agricultores que roubam terras indígenas, isso não tem. estilista descendente de índio não tem. muito menos público alvo indígena. nós, a galera branquela, sentamos nossas bundas branquelas na cadeirinha, achamos LIIINNNDAAA a dança indígena, achamos poderoso, forte, espiritual, levantamos nossa bundinha lynda da cadeira e vamos comprar roupa feita por gente branca e consumida por gente branca.

tudo lindo. tudo tão brasileiro, né? o índio, uma coisa tão nossa né???

e a roupa, cadê? a moda brasileira, cadê? a discussão sobre a moda brasileira, cadê? a crítica à apropriação cultural, cadê?

NOWHERE TO BE SEEN.

tem roupa bonita, é claro. tem roupa arquitetada com maestria. tem técnica, tem talento, tem amor. mas tem MODA? tem moda que significa algo, culturalmente, socialmente? tem moda tentando quebrar paradigmas?

teve ronaldo fraga e suas sereias topless, de todas as idades. tá aí uma boa discussão: a questão da idade dentro da indústria de moda. depois do boom do advanced style parece que essa borbulha meio que passou, as idosas foram novamente esquecidas, aí ronaldo fraga as veste de sereia e as põe nuas na passarela! que coragem, que audácia! mas novamente: a roupa na passarela é pra quem? pra velha é que não é. o público assistindo é velho? garanto que em sua esmagadora maioria, não. e digo mais: as velhas sereias nuas - elas desafiam algum padrão de beleza de verdade? não vou afirmar com veemência porque eu só vi algumas poucas fotos, mas me parece que todas elas eram velhas com uma beleza bem padrão, velhas que ainda são aceitáveis, velhas que foram claramente gostosas e desejadas um dia, e, tcharam, velhas brancas.

sei lá, talvez seja amargura minha.

aí teve a gisele.

GISELE.

aquela que nem de sobrenome precisa.

não me levem a mal, eu amo gigi as much as the next person, mas o fuzuê que causou, gente, vocês não tem ideia.

um monte de gente se amontoando, fotógrafo correndo na chuva, banheiro fucking interditado pra ninguém não autorizado chegar perto da porta da sala de desfile na qual gisele iria desfilar em algumas horas. (aliás, um parênteses rápido: cadê banheiro na sala de imprensa, galera antenada da moda?)

acho curioso essa movimentação toda apenas porque alguém que anda em passarelas disse que não vai mais andar em passarelas. uma loucura pseudo-jornalística assustadora, tudo porque a mulher não vai mais..... andar em público?

eu sei que é a gisele. sei que ela é incrível. tô cheia de dor no cotovelo porque eu não tinha autorização pra assistir o desfile, e se eu tivesse assistido teria tirado mil fotos feito mil vídeos e quem sabe até chorado com todo mundo? sim.

mas acho que o foco tinha que ser outro.

acho que a grande comoção se deve ao fato de que todos nós sabemos, deep down, que gisele foi a única coisa (ela não é uma coisa, eu sei, mas não sei que outra palavra generalizada eu podia usar aqui) realmente autêntica e única que a moda brasileira produziu nas últimas décadas.

ela é a moda brasileira sintetizada em uma imagem.

fora ela não houve mais nada relevante.

o frisson todo, para além do elemento diva, para além do marchar tão característico, da personalidade que todos amam, da beleza deslumbrante, é porque ela é tudo que a gente tem. o que é a moda brasileira sem gisele? o que se sabe ou se comenta da moda brasileira fora daqui, que não seja gisele? gisele é o elemento mais relevante da nossa moda, e é claro que ela merece tudo que alcançou, é claro que ela é uma profissional inigualável, e é claro que precisamos sentir orgulho dela.

mas se uma modelo é o único grande tópico de moda que esse país conseguiu fazer aparecer nos últimos anos, qual é a pertinência da nossa moda?

deixo jum nakao responder pra vocês, com sua costura do invisível.



*update:
vi mais fotos das sereias de ronaldo fraga e havia mulheres negras, mulheres gordas, mulheres de todos os tipos. ponto pra ele. o resto das minhas considerações continuam válidas.

Um comentário:

Paola Cardozo disse...

Mel, eu não sei em qual veículo você trabalha, mas você não poderia fazer uma matéria com as ideias desse post?!
Eu sei que onde eu estou, se eu sugerir isso pra minha editora, ela vai me olhar com cara de "coitada, isso não dá likes no insta".