12.4.15

does not suffice




acho que poucas vezes me apaixonei tanto por músicas quanto me apaixonei por músicas da joanna newsom. essa does not suffice foi uma paixão tardia, já que o disco eu escuto faz uns bons quatro anos, mas porra.

que descrição feminina sensível, detalhada, clara, e que descrição de um relacionamento objetiva, ideal, ~on point~.

esse comecinho, em que ela retrata uma mulher se escondendo, se fazendo invisível, se retirando de vista pra que o conforto do outro, dele, se estabeleça, se confirme, pelamor. é maravilhoso que para que a mulher se retire é necessário descrever minuciosamente todas as suas possessões, todas as coisas que fazem dela mulher e presente, enquanto que a presença dele sem ela se retrata a partir da falta de descrições, de vazio, de espaços. quer dizer, no ato de se diminuir ela acaba se fazendo visível, ela se espelha em objetos (todos estereotipicamente femininos), ela dá espaço a ele explicitando o seu próprio espaço visual e material; ao tentar se fazer invisível por ele, ela só deixa claro o poder imagético dela mesma, e a invisibilidade dele.

também é maravilhoso que ela se retire de vista encaixotando e empacotando seus vestidos, sapatos, jóias, sedas, cashmeres, toda uma sucessão de palavras tão conhecidas da vaidade feminina, tão tipicamente ligadas á faceta fútil das mulheres, a parte fácil, que é simples compreender porque é puramente estético, e nesse ato de esconder as provas físicas de sua vaidade ela está escondendo as lembranças de "quão fácil ela não foi". ela não está tirando de vista apenas as evidências de sua existência como mulher, mas seu lado brutal, difícil, dolorido, incômodo. se isso não é maravilhoso, eu não sei o que é.

sem a presença das memórias físicas dela, a presença maior, a lembrança latente, cresce. ao se esconder para que ele se conforte, ela só se torna mais presente, mais lembrada. em todos os espaços que ela deixou pra ele voltar a ser o ele sem ela, ela se refaz em presença imutável, eterna, para sempre presente em todo o espaço que ela deixou de ocupar.

se isso não é absoluto, nada é.



(1/setembro/2014)

Um comentário:

Nah Safo disse...

Eu lembro dessa. Ainda linda.