10.9.15

eu não costumo escrever muito sobre livros porque, ao contrário de filmes, músicas, séries e bobagens da rotina, eu não gosto de simplesmente escrever sobre minhas leituras do jeito que escrevo sobre as outras coisas, nesse tom meio ~engraçadinho~ que eu costumo usar.

mas né, eu tenho que escrever todo dia esse mês e não é como se hoje estivesse sendo um dia super inspirador, e aqui nesse site que te dá ideias pra escrever todo dia eles tão dizendo pra eu escrever sobre o livro do momento, e eu não sou o tipo de pessoa que simplesmente descarta tópicos pra blog, porque né, não tá fácil.

até recentemente eu estava lendo kafka on the shore, do murakami, que deve ser o milésimo livro do japonês que eu li na vida. o último dele que eu tinha lido que realmente causou algum impacto tinha sido a trilogia 1Q84, e foi mais ou menos essa trilogia e o fato de kafka on the shore ter um tom tão parecido que me levaram a escrever esse texto em que eu falo sobre a ausência de finais impactantes nas histórias dele. entre 1Q84 e kafka on the shore eu li after dark e mais algum dele que agora não lembro. ou seja, eu tava numa fase meio murakami maniac, que acabou.

o jeito que o murakami escreve é, sim, interessante, mas os livros dele são tão............... iguais. gatos-oráculos, sexo estranho, protagonista loner e introspectivo, uma pitadinha de realismo fantástico, vários acontecimentos bizarros, pra no fim: nada. enfim, eu sei que os protagonistas são meio que alter egos do próprio murakami, mas quantos livros dá pra escrever sobre o mesmo personagem? quantos livros sobre o mesmo personagem a gente aguenta ler? não sei, só sei que eu meio que me esgotei e acho que vou abandonar o murakami por algum tempo.

haruki, você foi uma boa companhia por algum tempo, mas chega.

só que antes de eu tomar essa decisão eu comprei o the strange library, então esse será definitivamente meu último por algum tempo. devo admitir que comprei o livro mais pela capa maravilhosa e pelas ilustrações lindas (e porque eu sou uma fanática por literatura infanto-juvenil) do que por vontade de ler mais uma história do japinha.

pra fazer uma limpeza espiritual do murakami, eu comprei o slaughterhouse five do kurt vonnegut e the martian, do andy weir, que entre comprar e começar a ler descobri que também é um filme recente????

sobre o slaughterhouse five não há nada a dizer além de: maravilhoso. a escrita é engraçada e escrachada porém profunda, o protagonista é um homem não-especial o suficiente pra que a gente se eidentifique mas especial o suficiente pra que a gente tenha interesse em ler, enfim, uma pequena e moderna obra de arte. recomendo muitíssimo.

sobre o the martian, que estou lendo agora: a premissa é interessante. no entanto, na edição que eu comprei, a capa carrega os seguintes dizeres: "robinson crusoe meets gravity" e eu acho essa descrição uma falha tremenda. explico por quê.

tanto robinson crusoe na literatura quanto gravity no cinema são duas narrativas que conseguem carregar em sua totalidade a história de um ser humano sozinho na imensidão de um universo (dadas as devidas proporções do universo de crusoe, que é uma ilha, e de gravity, que é literalmente o universo. o que importa não é a localidade em si, mas a metáfora que ela carrega). o que impressiona tanto no caso do livro quanto no caso do filme, é que nós conseguimos ficar interessados na visão do personagem único, que não interage com ninguém além de si mesmo.

robinson crusoe, por ser um livro e por estar pautado somente pelas descrições do que o personagem vive e do que ele pensa, acaba abrindo mão da solidão total do personagem pra que a história tenha algum conflito para além da sobrevivência do homem em uma ilha. por isso eventualmente o persoagem sexta-feira é introduzido, além dos canibais que são o inimigo abstrato do protagonista. passados os esforços de conseguir sobreviver sozinho fora da civilização moderna, esses canibais são o único perigo real que crusoe enfrenta, eles são o conflito do desconhecido, do algo que está para além do nosso conhecimento humano e social, eles são a personificação de um perigo que existe fora de nossas construções de relação e sociedade. apesar da existência desses outros personagens, o ponto de vista é sempre de crusoe, nós estamos na cabeça dele, não há outra visão do que está acontecendo.

gravity perde a força narrativa da escrita, de maneira que a gente não consegue acompanhar em primeira mão o que a personagem da sandra bullock sente e pensa - somente quando ela se expressa oralmente. porém, gravity ganha a perspectiva cinematográfica da imagem, que também deixa bem claro que o único ponto de vista que temos da história, da solidão humana, do sobreviver fora de uma realidade social confortável, é da protagonista. em nenhum momento sabemos o que estão pensando os familiares da personagem, ou o pessoal da nasa que está na terra, ou os telejornais, etc. nesse sentido, a obra se aproxima de robinson crusoe no retrato muito cru da solidão. sandra bullock não tem nem sequer um sexta-feira ou uma tribo perigosa como um horizonte de troca social humana, ela está definitivamente sozinha. pra que a narrativa tenha um conflito interessante para os expectadores, o auxílio visual faz toda a diferença. ela está no espaço sozinha, portanto diferentemente de crusoe não tem a perspectiva de contato social mínimo que pode haver numa ilha que fica no planeta terra, onde os humanos vivem. o inóspito do espaço só pode ser retratado visualmente, se ele for um atuante real da narrativa.

já em the martian, a gente tem um homem sozinho numa espécie de ilha (marte) no espaço. como crusoe, ele está sobrevivendo com o que tem em sua ilha (ao invés de elementos da natureza, ele tem os suprimentos que a nasa enviou pra marte), e como sandra bullock, ele está completamente isolado de contato humano. o problema aqui é: não temos a possibilidade do protagonista encontrar outro ser humano, portanto o conflito narrativo não interessa por muito tempo. quantas páginas de um cara sozinho em marte plantando batatas, regulando humidade do ar e limpando painéis solares a gente quer ler? ao mesmo tempo, a falta do auxílio visual cinematográfico que existe em gravity também faz a história desinteressar rapidamente.

o autor resolveu esse problema colocando um segundo ponto de vista na história: o pessoal da nasa em houston, que apesar de não conseguir se comunicar com o rapaz em marte, tá acompanhando de longe tudo que ele faz.

esse segundo ponto de vista é necessário pra nós, leitores, continuarmos querendo saber o que vai acontecer. porém, ele descaracteriza totalmente tanto o lado robinson crusoe quanto o lado gravity da história, e perde o fator solidão, a tal da ideia ~todo homem é uma ilha~, perde aquela faísca de retratar o que acontece com alguém que está completamente retirado do nosso espectro social.

além disso, uma das coisas mais interessantes em gravity é que a sandra bullock, astronauta treinada - apenas imaginem o processo de seleção e em seguida o treinamento pra missões espaciais, galera, só gente muito equilibrada deve conseguir - ainda assim perde pro seu lado mais obscuro, mais humano, que é o medo. medo de morrer, medo de estar sozinha, medo do que não se conhece. o pânico dela é a reação primária, que quase a impede de sobreviver.

em the martian, não tem pânico. não tem medo, não tem o lado mais humano, mais instintivo da narrativa. o protagonista é um astronauta treinado, mas ele não é uma pessoa completa, ele não tem a reação momentânea do medo, com o qual a gente se identificaria.

portanto, nem robinson crusoe nem gravity, apenas um best seller fácil de ler, que prende nossa atenção pelo absurdo da coisa mas falha em aprofundar a realidade na qual o protagonista se encontra. also, muita descriçãozinha que não necessariamente acrescenta à narrativa, típico de livro que foi escrito pra virar filme mesmo. a própria construção do personagem é muito mais hollywoodiana do que literária, ele é o típico herói hollywoodiano inteligente mas engraçado, charmoso mas meio amargo, todo um clichê americano perambulando por marte. outra coisa que é extremamente hollywoodiana e nem um pouco literária são os diálogos do pessoal da nasa aqui na terra, típicos diálogos de personagem secundário de hollywood, conversas que não dizem nada mas mostram arquetípicos de personagens que funcionam no cinema, pra que o expectador entenda quem são aquelas pessoas sem que elas precisem ter muito tempo de tela.

enfim, é um livro divertido, mas pelo fato de a gente ter o segundo ponto de vista da galera terrestre, bem previsível também; coisa fácil de adaptar pro cinema e também fácil de virar best-seller.

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