2.8.16

sem direito de resposta

há algum tempo fui forçada a refletir sobre meu desapego. não com as pessoas, mas com as coisas, os acontecimentos, as memórias, o passado.

gosto de acreditar que tudo cumpre seu papel na nossa vida, aí acaba e nos deixa levemente mudados e prontos pra próxima coisa que vai acontecer e cumprir seu papel até acabar. acredito nisso não apenas pra mim, mas meio que acho que as coisas todas aconteçam assim. sociedades surgem, cumprem seu papel e acabam. o próprio ser humano vai cumprir seu papel e sumir um dia, como tantos outros seres tantas vezes antes de nós. tudo o que a gente constrói, todas as coisas da natureza, absolutamente tudo: surge, cumpre seu papel, desaparece. vira outra coisa.

numa escala mais pessoal, penso que o mesmo vale para nossos relacionamentos interpessoais. amizades, por exemplo: tenho, claro, algumas duradouras, mas também tenho tantos amigos e amigas que fizeram parte de mim, da minha vida, e depois, de uma maneira ou outra, foram embora. às vezes quem se afastou fui eu, às vezes eles, mas é isso. nos afastamos. o que essas amizades representam em mim é muito maior do que a obrigatoriedade que às vezes sentimos de continuar mantendo contato com pessoas que não cabem mais na nossa vida, seja pelo motivo que for.

quando mais jovem eu ficava triste. pensava nos amigos perdidos, sumidos, esquecidos pelo caminho, imaginava quão imbatíveis algumas dessas amizades seriam se não tivessem acabado. sentia pelos amigos que não estavam mais aqui por escolha deles, mas ficava especialmente abatida pelas amizades que haviam acabado por minha causa.

hoje considero que nós seguimos nossos caminhos cada um, e nem sempre eles seguem juntos para sempre. e percebo que, mesmo nas vezes em que a culpada fui eu, o que aconteceu precisava ter acontecido. para que eu aprendesse algo, sobre os outros, sobre mim mesma, sobre tristeza, sobre amigos e pessoas e sobre essa coisa difícil que é conviver. acredito que cada uma dessas amizades veio, cumpriu seu papel na minha vida (e eu o meu na vida delas), mudou em mim o que precisava ser mudado (nem sempre pra melhor, vejam bem, às vezes a gente precisa mudar pra pior um pouco, por motivos do destino, pra aprender alguma lição, talvez) e seguiu adiante.

ces't la vie.

acho que finalmente entendi o que essa expressão significa, porque é isso a vida mesmo, as coisas nascem e morrem todos os dias, literalmente e em todos os sentidos figurados possíveis.

há algum tempo comentava isso com uma pessoa, não tão detalhadamente e obviamente menos coerentemente (por que falar sobre o que a gente pensa é sempre tão mais difícil que escrever?) e ouvi, provavelmente porque falava com um estudante de psicologia, que eu precisava lidar com esses sentimentos que eu estava guardando dentro de mim. que talvez eu precisasse de terapia.

aí percebi que ele não tinha entendido nada. eu não estou guardando sentimentos em mim, eu faço o extremo oposto disso. eu não cultivo e guardo sentimentos que vão crescer dentro de mim e me tornar mais feia, mais triste, menos funcional no meu eu presente. eu abro mão de tudo isso, eu encerro fases da vida, aceito seus ensinamentos, e o resto eu deixo ir embora, com o vento, com a água do chuveiro, não sei direito como.

é claro que eu não posso falar pelas experiências dos outros, nem sequer tentar entender as razões pelas quais as pessoas fazem o que fazem - cada um de nós é uma história acontecendo e só nós mesmos sabemos como essa história começou e pra onde queremos que ela vá - mas por causa de tudo isso eu nunca entendi gente que fica fisgada na rede de ex-namorados, por exemplo. não que eu não considere minhas relações amorosas passadas parte da minha vida e parte de quem eu sou, mas é exatamente o que eu disse: essas relações e essas pessoas cumpriram seu papel. me ajudaram a entender melhor a mim mesma, o que eu quero e não quero, no que eu acredito, me ensinaram a testar meus limites, a compreender o que eu aceito ou não, o que faz bem pra mim ou não. e eu não consigo ver motivos pra querer voltar para trás; eu agora sou outra, e infelizmente ou felizmente nesse meu eu atual não cabem acontecimentos passados. coisas que já foram. experiências que eu já vivi.

quando eu comento tudo isso com amigos, colegas, familiares - e foi assim com meu parça psicólogo - a impressão que eu passo é de que sou fria. distante. que eu não sofro.

eu sofro, claro que sofro. sofri com amizade perdidas, sofri com heartbreaks, assim como alguém deve ter sofrido por minha causa. não renego o sofrimento nem a tristeza como momentos fundamentais de auto-descoberta, mas uma vez que passam.. bom, aí passou.

passou e muito provavelmente o que eu guardo dessas experiências, dessas tristezas ocasionais, é muito melhor do que o rancor, ou a saudade nostálgica, ou a vontade de voltar e refazer algo. eu guardo crescimento emocional, evolução pessoal, possibilidades novas que vou encarar um pouquinho mudada, um pouquinho amadurecida, e sempre mais leve.








(terminei de escrever e percebi que isso é um baita textão de auto-ajuda, mas estando na primeira pessoa a gente aceita como anedota pessoal e segue em frente) (pouco a pouco chego à conclusão de que preciso aceitar o tamanho do talento que tenho, e acho que meu talento é do tamanho não de uma grande cronista da minha geração mas apenas de auto-ajuda. e no fim, se tá ajudando, e mais ainda se tá me auto-ajudando, não vou reclamar)

Nenhum comentário: