27.10.16

há alguns meses comprei um kindle. noto que tenho lido muito mais. percebi, também, que tenho tido mais chance de me aventurar a ler coisas que normalmente eu não leria, coisas que eu não acharia em livrarias, livros independentes, livros pouco famosos, livros escondidos.

em algum momento da faculdade, uma das minhas professoras de literatura - uma das minhas preferidas - contou uma história de uma biblioteca, ou livraria, que ficava em algum lugar inóspito e extremamente pobre, não sei se algum lugar de são paulo ou desse brasilzão de meldels; a história foi contada faz tempo numa sala de aula em meio a teorias literárias e análises poéticas, e eu sei lá por que mecanismos obscuros do pensamento, ela só retornou a mim hoje.

por que hoje, de todos os dias, por que agora, por que essa história, de tantas outras; essas são perguntas que talvez eu nunca consiga responder. hoje, antes de lembrar da história da minha professora, passei na dona deola pra comer uma coxinha - por que raios decidi que precisava de uma coxinha é também algo que talvez eu passe a vida me perguntando, mas enquanto eu comia a coxinha com ketchup, lembrei de quando eu era criança. na frente da minha escola ficava uma barraquinha de doces e salgados, que pertencia ao baiano. baiano vendia uma coxinha deliciosa que comíamos com ketchup misterioso, e a coxinha fazia tamanho sucesso que foi nomeada coxinha chernobyl. no início da internet, até site a coxinha do baiano tinha, e se minha memória não me falha posteriormente ela ganhou comunidade no orkut. comendo minha coxinha na dona deola, lembrei do baiano, de sua coxinha chernobyl, e de como durante algum tempo todo dia eu comia uma coxinha chernobyl depois da aula, e como nunca em nenhum daqueles dias eu pensei que haveria um tempo futuro em que eu nunca mais comeria aquela coxinha. mas hoje pensei exatamente isso "nunca mais vou comer uma coxinha chernobyl do baiano".

e foi no meio dessa constatação, enquanto eu comia uma coxinha na dona deola, que a história da minha professora de literatura veio à tona nos meus pensamentos. de qualquer maneira havia essa livraria ou biblioteca (acho que era biblioteca, a história tinha esse tom de se passar num lugar onde o conhecimento dos livros é compartilhado em oposto a comercializado, mas talvez isso seja meu cérebro romantizando uma história de faculdade) cheia de preciosidades num lugar de são paulo ou do brasil onde você não esperaria encontrar preciosidades literárias. coisas como primeiras edições de machado de assis, edições históricas, capas magnificamente antigas, enfim. minha professora de literatura, ao se deparar com aquilo tudo, ou com alguma edição específica de algum livro específico, disse numa surpresa contida "mas isso daqui é uma preciosidade, vale muito" e os donos da biblioteca (ou livraria) disseram "o que vale mesmo é o que tá dentro, dona".

desde que descobri o que era um kindle, e ainda agora que tenho um, me pergunto e às vezes converso com pessoas próximas sobre essa questão do livro digital, do papel versus a tecnologia, do armazenamento daquele monte de livros, mas também de quão bonitos eles são, e da relação que a gente tem com o papel e com a leitura, mas no fim das contas, não é bem isso? o que vale mesmo é o que tá dentro? o que importa é ler, e se meu alcance como leitora é maior pelo kindle, qualéqueé a grande questão, por que esse apego ao papel, ao tradicional; não que ele deva ser esquecido eliminado mas as coisas se complementam, pra alguns de um jeito e pra outros de outro, e tudo bem quem não quer comprar um kindle, mas não me venha com a história de que a leitura é melhor no papel; a leitura é melhor se é bem feita, e isso quem dita não é o papel ou a tela incrível do kindle, mas sim a maneira como nós, leitores, nos debruçamos sobre a história que estamos lendo (ou sobre as histórias que estamos lembrando, que essas também formam nossos livros internos e nos ajudam a interpretar leituras mil, de livros, de pessoas, desse mundão todo aí a fora)

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