30.10.16

mariana

mariana, minha tia-avó, morreu hoje. acordei, fui ao banheiro, e sentada na privada li a mensagem que minha irmã mandou. chorei lá mesmo, na privada, e continuo chorando agora enquanto escrevo isso.

quando meu avô paterno, de quem eu era muito próxima, faleceu, eu não chorei. não imediatamente, pelo menos.

quando meu avô materno também se foi, ano passado, eu também não chorei.

agora mariana faleceu, e parece até que eu guardava ela dentro de mim com muito mais cuidado do que eu pensava.

meu avôs, os dois que faleceram, tinham esposa e filhos e netos e amigos queridos, todo um suporte que, embora inútil, existia. todo um grupo de seres humanos que, nos últimos dias dos dois homens, cuidaram deles, fizeram companhia, estavam lá, em cada, no hospital, onde fosse necessário. minha mãe tem 6 irmãos, e todos eles se revezaram, no quarto de hospital, até o último dia. meu avô nunca esteve sozinho (embora talvez estivesse dentro de sua cabeça, mas o que eu vejo é o que está aqui, do lado de fora). meu pai só tem uma irmã, e por pouca ajuda que ela possa oferecer (cada um tem seus próprios dramas pra lidar, e alguns são bem mais difíceis, minha tia tá nesse grupo), o carinho que ela tinha pelo meu vô, o amor que se via, até o fim, isso serve pra gente pensar menos sobre a solidão da morte.

no dia que minha tia-avó foi mandada embora de seu apartamento (por minha vó, que morava com ela e que de repente decidiu que ela tava muito difícil de lidar - até os próprios velhos desprezam a velhice dos outros), eu tive que, em meio a malas e decisões de o que levar para a casa de repouso, sair do apartamento, dar uma volta no quarteirão, chorar sozinha.

desde então penso muito na mariana, sozinha naquela casa de repouso tão longe de onde todos nós morávamos. sempre achei a decisão de colocá-la tão longe pelo conforto de pagar menos foi extremamente egoísta, de todos nós. por algum tempo culpei minha vó, que expulsou a irmã de sua própria casa, mas é sempre mais fácil enxergar a culpa dos outros. eu podia ter ajudado a pagar um lugar mais perto. eu podia ter visitado mais vezes.

lembro das poucas vezes que visitei, da felicidade de mariana ao nos ver, também da fragilidade dela, da velhice que faz a gente virar criança de novo, e como quando a gente é criança tem sempre alguém que nos ama cuida do da gente, mas na velhice mariana ficou sozinha, sendo cuidada por estranhos.

pense muito no fato de que nas duas últimas semanas, ela estava no hospital, e eu visitei zero vezes.

talvez eu esteja chorando mais por culpa do que por tristeza da morte. a morte pra mim sempre soou natural, as coisas acontecem do mesmo jeito para todos e morrer é o final inevitável. acho que foi por isso que não chorei quando meus dois vôs morreram.

talvez eu esteja chorando pela certeza da solidão, não importa o que a gente faça.

eu decidi, já, que não vou ter filhos. os motivos são vários, e de naturezas várias também, mas não quero explicar aqui, tampouco acho que devo. mas percebo, agora, que essa decisão afetará minha velhice, como afetou a velhice de mariana. não ter filhos é estar destinada a acabar sozinha numa casa de repouso distante sem que seus parentes te visitem com a frequência apropriada. sei que ter filhos também pode significar a mesma coisa, mas não nos exemplos que tenho, não no que na minha família. na minha família, ter filhos é a garantia de que você, velho e doente, estará amado e cuidado.

eu, que sempre tive medo de ficar velha, mas não de morrer, agora tenho medo de ficar velha e morrer esquecida e sozinha. percebo que não importa que a gente seja bom, tenha carinho pra dar, seja parte de uma família grande, nosso destino é o mesmo, a solidão na velhice. a solidão na morte.

sei que todo ser humano na terra morre sozinho, donnie darko me ensinou pelo menos isso, mas é da ilusão que eu tô falando. acabo de entender que minha decisão de não ter filhos é também a decisão de abrir mão da ilusão: a ilusão de que temos algum propósito no mundo, a ilusão de não estarmos sozinhos nessa jornada curta e intensa, a ilusão da nossa própria importância.

antes de receber a mensagem da minha irmã, estava lendo uns arquivos antigos do vodkabarata. faço isso as vezes, escolho um blog que amo e clico em algum mês dos arquivos, pra ler as coisas publicadas antes do tempo que eu comecei a ler o blog. li um post sobre o atropelamento de duas senhoras, e adelaide conta tão bem, e descreve tão pouco, seu texto quase o contrário da fotógrafa que adelaide também é. gosto muito de como ela escreve, de como escrevia, e de como escreveu esse incidente das senhoras atropeladas.

se fosse eu a velhinha atropelada, como teria sido essa história? eu, velha e sem filhos, pra quem adelaide teria telefonado? estaria eu, velha e atropelada, sozinha numa cama de hospital até a alta? e se fosse mariana?

falar de dor, falar de morte, falar de perda: é sempre um exercício egoísta, é sempre falar de nós mesmos, mas quanto da vida é puramente egoísta?

morrer sozinho talvez seja a coisa menos egoísta que a gente faça, já colocar nossos entes queridos idosos em casa de repouso pra morrer sozinhos talvez seja a coisa mais egoísta que sejamos capazes de fazer.

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