3.12.16

arrival



tento evitar falar sobre os assuntos do momento, especialmente filmes

(até porque descobri recentemente, ou mais do que descobrir, cheguei à conclusão, depois de 29 anos de vida, de que talvez cinema não seja assim uma linguagem com a qual eu me identifique muito? fico lembrando da becca em pitch perfect dizendo que filmes são previsíveis e portanto chatos, e meio que concordo? talvez isso seja assunto pra eu escrever em outro post, mas já que estamos aqui.. bom, gente, no geral acho que o filme, pelo próprio formato - imagens que se movem ao invés de palavras como nos livros, o tempo que um filme costuma durar, em oposto ao tempo que um livro ou uma série tem para desenvolver seus conflitos e seus personagens, etc - enfim, o próprio formato do filme faz com que ele seja, inadvertidamente, inaprofundável. o filme sempre é uma pincelada dentro de um universo, mas faltam propriedades a esse formato que permitiriam uma aprofundação real do seja lá o que for que esteja sendo proposto. por isso, no geral, acho que gosto de filmes adolescentes, comédias, besteiróls, porque são gêneros cuja profundidade não está na narrativa da história, mas no próprio uso da linguagem para criar humor, e aí se resolve o problema e se elimina, pelo menos para mim, a sensação de "faltou alguma coisa")

mas eu sou uma sci fi girl, afinal de contas. e eu assisti recentemente ao filme a chegada, com aquela ruiva que dizem ser ótima (mas esse foi o primeiro filme que vi com ela em que eu não achei a atuação meio forçada, meio que um trying too hard, meio tipo leo tentando ganhar oscar) e um outro cara que já vi em outros filmes também, mas a questão aqui não são os atores nem seus personagens, mas os ets e a linguagem, a ideia de quão falha é nossa comunicação - mas taí um ponto que o filme falhou em aprofundar e discutir.

vou mencionar coisas que eu pensei enquanto conversando com um amigo sobre o filme, então eu posso ou não ter simplesmente copiado e colado do nosso ~~chat no whatsapp.

essa foi a primeira ficção científica em muito tempo que eu pensei: SIM. YES. OH YES. mas algo que tem me incomodado na ficção científica cinematográfica é que não importa o que aconteça o foco é sempre a gente, sempre o humano. a gente encontra uns ets locão e só serve pra gente olhar mais pro próprio umbigo??? por que as epifanias tem que ser sempre sobre o próprio ser humano?                        
tô tão cansada desse homocentrismo; nem sei se é assim que chama mas eu quero respostas sobre a vida o universo e tudo o mais, não respostas sobre a humanidade. foda-se a humanidade.
                
acho isso uma falha muito grande, porque confrontada com seres de outro planeta a humanidade passa a ser claramente insignificante, mas esses filmes passam a ideia de que a humanidade fica mais importante? acho isso uó. 

de qualquer jeito, gostei tanto do filme que baixei o conto no qual ele é inspirado, e assim como 2001 só fica completo se a gente lê o livro, o conto e o filme se complementam muito bem, embora os dois podiam se aprofundar mais na questão da comunicação, que é uma pergunta muito interessante: a gente conseguiria, algum dia, se comunicar com um ser que existe completamente fora de nossa organização social? a linguagem, pelo menos a linguagem humana, é extremamente conectada com como uma sociedade funciona, e se não há nenhum ponto em comum entre duas sociedades, é possível haver uma linguagem em comum? é possível entender a linguagem de alguém cujo contexto social, sentimental, científico é completamente outro? ainda tenho dúvidas quanto a isso. mas uma coisa que preciso admitir é que assistir a esse filme e ler ao conto me deu te vontade de voltar pra letras, estudar linguística mais a fundo, entender (ou tentar) esses mecanismos da comunicação, da linguagem, do idioma oral e escrito.

há muitos anos li um conto, acho que é do asimov, em que uma nave de humanos viajando pelo espaço encontra outra nave, alienígena (aí aqui paro e me pergunto: a própria ideia de uma nave alienígena no espaço não é ridícula? no espaço, especialmente se sairmos do sistema solar, somos todos alienígenas, todos seres estranhos, todos bichos doidos tentando conquistar ou conhecer um lugar que não foi feito pra gente existir). a premissa é parecida, duas civilizações que são alienígenas uma à outra e que precisam se comunicar e superar o obstáculo do encontro com o estrangeiro desconhecido. o fato de eles estarem no espaço, no entanto, que é território neutro, deixa as coisas mais em perspectiva. a história é menos sobre uma nave humana que encontra ets, e mais sobre dois povos tentando resolver um impasse, dois povos que conhecem zero um do outro tentando descobrir se o outro é hostil ou não, se ele é fisicamente parecido com a gente ou não, e se há alguma maneira de criar comunicação clara, que não carregue ambiguidades e perigos de má-compreensão. no fim, a história não é sobre a humanidade (até porque estamos falando de uma única nave no espaço bem longe do resto de nós, e portanto o encontro com o alien não tem consequências diretas e imediatas sobre os caminhos da humanidade), mas sobre encontrar um ponto de equilíbrio para que uma troca de mensagens possa começar sem perigos para nenhum dos lados. é uma história sobre as dificuldades de comunicação.                   

li um livro do asimov recentemente chamado the gods themselves. o livro também trata de uma interação entre humanos e seres de outro planeta, mas é uma interação puramente científica e a gente não tem contato real com os ets. além disso, o livro muda o ponto de vista: metade se passa na terra e metade se passa no outro planeta. dessa maneira dá pra conhecer muito bem a organização social dos ets, o que eles pensam sobre a vida, como a perspectiva sobre viver muda quando a gente olha pelos olhos de outro ser. e basicamente os ets são apaixonantes e tão pouco se fodendo pra terra e pros humanos. foi legal ler uma coisa menos com o homem como centro de tudo, e que trata não da dificuldade de comunicação - pois nenhum dos lados tá muito interessado em conversar, em se conhecer e se compreender. o que os dois lados querem é que a troca científica que está ocorrendo continue ocorrendo sem problemas. porém, assim como em a chegada, todo conhecimento que temos dos alienígenas é baseado em suposições e deduções científicas, que não podem ser comprovadas pela falta da comunicação. e e aí que começam os problemas.  

agora, se os ets vem aqui pra terra como em a chegada, é claro que a gente vai ficar achando que as coisas são sobre a gente, a gente, a gente. a gente é egocêntrico até nas coisas inventadas, mano, e isso tem me deixado bem incomodada.

o próprio asimov diz que uma ficção científica verdadeiramente boa não fala só sobre possibilidades científicas futuras, mas traz uma visão catártica sobre o funcionamento da nossa sociedade.               

o problema é que não tá tendo catarse, não tá tendo reflexão sobre nosso modo viver, não tá tá tendo a perspectiva de que o jeito que o ser humano escolheu viver (pois toda sociedade escolhe seus valores e suas crenças) não é absoluto, único e especialmente não é a única possibilidade de certo. e o que eu acho é que é pra isso que serve a ficção científica, pra gente colocar nossa própria função como seres universais em cheque. nos livros  de ficção científica que eu leio, isso rola, mas acho que pelo próprio formato do cinema os filmes não conseguem passar essa ideia. eles são extremamente centrados no humano, e a ficção científica serve pra gente tirar os olhos da gente e criar perspectiva.
                       
2001 por exemplo, considerado o pai do sci fi no cinema, é um filme sobre a jornada de um homem, não sobre discutir o homem frente a um universo desconhecido e que muito provavelmente só vai mostrar que a gente é nada. 

eu acho que até considerando o momento social que o ocidente tá vivendo, a ficção científica mais do que nunca tem que olhar pra fora e não pra dentro (pra olhar pra dentro a gente já tem os avengers, e os super herói tudo, estamos todos seguros)
                     
a chegada tem momentos que mostram isso: as notícias que saem no jornal totalmente destorcidas e o soldadinho que explode os ets por causa das notícias da tv. esses momentos do filme mostram como nossa visão sobre nós e o que está fora de nós é completamente deturpada, infantil, como nossa percepção do todo é tão pífia, tão ínfima, tão pontuada pelos nossos próprios conflitos políticos que não fazem o menor sentido - e aplicar nossas lógicas sociais a seres de outro mundo claramente não é certo. mas para além disso, o filme não trouxe mais nada nesse sentido, na possibilidade de uma diferença social tão grande que a gente pode até conseguir se comunicar, mas jamais iremos nos compreender.

eu acho que o uso da ciência nesse tipo de filme, da física, da química, da matemática - conceitos que nós consideramos universais - serve pra contrapor esse problema social. podemos não nos compreender como seres sociais, mas com certeza iremos nos compreender como seres científicos, como seres que interpretam o mesmo universo. mas é aí que está a pegadinha: até nossa ciência é apenas uma interpretação do nosso universo. uma interpretação não é uma verdade absoluta, e nós talvez jamais compreendamos a interpretação científica de uma civilização extraterrestre.  

o conto trata um pouquinho mais dessas problemáticas - até porque um conto, pelo seu meio escrito, tem muito mais possibilidades de aprofundamento do que um filme (acho que mencionei meu problema com a questão do aprofundamento no começo desse post), mas mais do que o próprio conto, o livro tem um outro conto sobre matemática, e como ela desmorona se alguma das nossas suposições básicas, como 1 + 1 = 2, é provada errada. ou se algum pressuposto considerado absurdo, como 1 = 2, é provado como correto. na matemática, como nas humanidades, é tudo uma questão de interpretação e de pressupostos que tomamos como certos. e a matemática tem um problema ainda maior, que a meu ver dificultaria ao invés de facilitar comunicações com seres de outros planetas: existe a matemática abstrata, que é impalpável e existe através de cálculos, e existe a matemática aplicada que descreve o universo como nós o experienciamos. se eu tenho uma barra de chocolate e ganho mais uma, eu tenho duas. isso é matemática aplicada. na matemática abstrata, eu preciso de cálculos que provem que 1 + 1 é igual a 2, porque esses números, ao contrário do meu chocolate, não são concretos. pra provar que 1 + 1 = 2 eu preciso provar que 1 e 2 são intrinsecamente diferentes, e se não existe prova de que 1 é necessariamente diferente de 2, isso significa que, ao contrário da nossa experiência, em algum contexto talvez 1 seja, sim, a mesma coisa que 2 e, portanto, 1 + 1 não resulte em 2.




toda nossa ciência parte da experiência concreta, material e física que temos do mundo, e se a experiência de outro ser não é a mesma, é bem coerente que a ciência deles seja incompreensível. 
                 
eu acho que é isso que eu queria, um filme que focasse em mostrar como nossa lógica sistemática social é falha e só funciona pra gente pelas coisas que a gente aceitou como verdade, mas que nossas verdades não são universais, e a gente não tem nem por onde começar a entender e se comunicar com alguém que esteja fora dessa organização social.

vamos pegar guia dos mochileiros das galáxias, por exemplo, que além de ser sci fi é comédia. todo o humor na historia vem do fato do douglas adams ter pego o funcionamento social da inglaterra, com suas burocracias loucas, com seus gostos esquisitos, com suas relações sociais humanas e britânicas, e aplicou no universo inteiro. a ideia é que não importa pra onde você vá no universo, você vai encontrar burocracia bizarra, relacionamentos confusos, e tudo mais com o que um humano está familiarizado. e a piada está exatamente no fato do absurdo de esperar trocas sociais humanas fora do planeta terra; de supor que todas as civilizações e todas as sociedades funcionam como a terra, ou mais especificamente como a inglaterra. essa ideia só funciona sendo piada, porque é absurdo.                       
 mas aí nos sci fis sérios eles partem do mesmo pressuposto, o que é ridiculo. ou talvez não partam do mesmo pressuposto, mas no fim a troca entre os dois povos, a comunicação, é sempre feita dentro dos parâmetros humanos, e isso pra mim é muito incoerente e muito inverossímil.

de qualquer maneira, essa volta do sci fi tem que ser discutida, é quase uma resposta à volta dos super heróis - são duas maneiras bem diferentes de retratar a humanidade e nossos problemas e devem haver motivos sociológicos pra essa coisas estarem voltando à moda né.

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