6.12.16

são paulo desperta o pior em mim

nosso grande problema é nossa habilidade de pensar associativamente e de criar significados pras coisas. no livro oryx&crake da margaret atwood, crake, um cientista muito genial e gravemente pirado, cria uma raça humana superior - que vai sobreviver, enquanto todo o resto da humanidade morre, à praga assassina e destruidora que, surprise, o próprio crake criou.

esses humanos perfeitos tem várias características físicas esquisitas que lhes darão a vantagem evolutiva pra sobreviver no planeta pós-apocalipse. coisas como xixi que espanta predadores, conseguir se comunicar harmoniosamente com os animais, ronronar, ter o pênis azul, todo um conjunto de coisas que nós pessoinhas não possuímos e que crake achava essenciais.

crake também achava algumas coisas completamente desnecessárias e inclusive desvantajosas de uma perspectiva evolutiva. o tal do pensamento associativo que nos permite criar significado a partir de coisas que a gente percebe fisicamente, por exemplo, crake achava que a gente ia se dar melhor sem isso. é também essa característica que nos permite criar arte, mitologia, religião, política, etc. e preciso concordar que estaríamos mesmo melhor sem algumas dessas coisas.

só que aí se descobre, depois do apocalipse todo, que os esforços de crake foram em vão. pensamento associativo aparentemente é uma marca d'água do ser humano impossível de apagar. música também (crake achava bem irritante as canções que as criaturas dele cantavam o tempo todo, mas ele também não conseguiu apagar a música do dna humano). e, meio que, parecia de leve assim, talvez, que deus também era indeletável. porque os carinhas achavam que esse tal de crake, doidão das ideias, era meio que deus.

acreditar em deuses, de certa maneira, é a mesma coisa que acreditar que as coisas acontecem por algum motivo. é a mesma coisa que acreditar em carma, em destino, essas coisas todas para as quais ainda não encontramos evidência científica.

aí que hoje, voltando de uma entrevista de emprego, eu caí. tropecei num buraco no chão (obrigada são paulo por essas calçadas refinadas) e caí, ralei minhas mãos, um joelho de leve e o outro ralei à beça. o vendedor da lojinha na frente da qual eu caí só riu de mim e continuou seus afazeres profissionais importantíssimos, como tirar a vassoura de um preguinho e pendurar em outro, palmas pra todo esse profissionalismo, é disso que o brasil precisa.

tudo que eu consegui pensar era que me machucar era o universo me fazendo pagar por algo que eu fiz quando eu estava a caminho da minha entrevista (a mesma entrevista da qual eu estava voltando quando caí).

na pressa e na loucura de são paulo eu caminhava rapidamente pela calçada, quando um homem vindo em direção contrária disse "bonitinha". meu cérebro tem resposta automática pra esses momentos de cat-calling, então eu já estava no meio da palavra "escroto" e me preparando para mostrar o dedo do meio quando me virei e vi que era um senhor. ele olhou pra mim e repetiu "olha que bonitinha" e apontou pra uma cachorrinha pequenininha meio poodle assim dentro de um prédio. a cãzinha era bonitinha mesmo.

eu achei que tinha dito "bonitinha mesmo" pro senhor, mas acho que só pensei, porque na pressa toda de chegar na hora olhei a cachorra e me voltei pro meu caminho anterior em menos de um segundo.

fiquei a entrevista toda e o caminho de volta todo pensando que eu devia ter sido mais gentil com o senhor, me perguntando se ele ouviu o "escrot....." que eu estava declamando, refletindo sobre o que teria acontecido se eu tivesse, mesmo, dito em voz alta "bonitinha mesmo!" antes de me virar e ir embora.

sei lá.

aí na volta, quase no mesmo ponto em que o senhor falou comigo, eu caí.

e ainda me sinto mal pela situação com a cachorrinha e o velhinho caminhando. ele tava passeando gente, um passeio matinal, ele só quis comentar algo bom, algo que o fez sentir bem, e eu? eu só tinha pressa e raiva e pré-concepções na minha cabeça.

porque são paulo faz isso com a gente.
eu odeio são paulo.

e por mais que eu não consiga me livrar do pensamento associativo que me faz acreditar que eu paguei de alguma maneira cármica pela grosseria com o velhinho, eu duvido que o cara que riu de mim vai receber algum pagamento cármico. ou a escola que me demitiu uma semana depois de me garantir que as novas turmas do ano que vem seriam minhas. ou qualquer outra pessoa que eu sinta que mereça pagar por algo.

e também duvido que são paulo pagará carmicamente por todo mundo que tropeçar naquela merda de buraco.

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