11.1.17

loucura, chiclete e som

às vezes eu tenho dificuldade em sentir que minha vida é real. falei muito disso no começo do ano passado, mas a sensação era levemente diferente.

um ano atrás eu estava lutando pra entender essa sensação de que nada tem propósito, finalidade, ou significado. eu tinha percebido - pela primeira vez de verdade, e não só no discurso - que essa tal de vida real da qual a galera fala não existe. é tudo ilusão, é tudo inventado, nada é real. nem sequer nossas percepções do mundo são reais, é tudo uma ilusão magistralmente criada pela biologia do nosso cérebro - que até hoje ninguém conseguiu entender. o fato de ter me dado conta de tudo isso mas continuar tendo que viver em sociedade, num sistema organizacional altamente questionável mas que curiosamente ninguém questiona tava fazendo eu entrar em parafuso. é por isso que existem nossos escapes, eu sei. beber pra caralho, usar drogas, comportamentos de risco, tudo isso é pro corpo sentir que nada faz sentido mesmo e que a gente pode subverter essa ordem criada por alguém mas que não nos comporta.

ainda sinto tudo isso, mas não sinto mais que estou enlouquecendo. ainda acho uma merda ter que me conformar com esses conceitos de vida que foram inventados pra que algumas pessoas sintam que tem poder, estabilidade, segurança - mesmo que não exista nada disso de verdade, é tudo inventado, gente. ninguém tem poder sobre ninguém, a gente é tudo bicho e na vida real MESMO é cada bicho por si e nada significa nada para além de sobreviver, envelhecer, morrer.

nada
significa
nada

todas as coisas que tem significado pra gente foram inventadas. a tal da família brasileira? esse conceito de família nem existia antes da burguesia crescer socialmente e passar a ser mais importante que os nobres. mulher usar saia e homem usar calça? mulher gosta de moda e homem gosta de coisas lógicas? vamos lembrar que na grécia antiga todo mundo usava saia (e era gay), e nas cortes francesas todo mundo, homem ou mulher, gostava de moda, trocava de roupa várias vezes por dia e andava cheio dos babados, rendas, pedras encrustadas nas roupas, maquiagem e salto alto. aliás, quem não gostava de moda era criança - porque roupa e moda eram coisas que sexualizavam o ser humano, e criança tinha que ser assexuada. sabe o que mais sexualizava as crianças? usar calça, que indicava que um menino era na verdade um homem. criança usava vestido, porque criança é criança, não é homem nem mulher. aliás, taí um dos conceitos de antigamente que tinha que ter ficado pra gente, né, porque isso de kinder ovo rosa e azul é ridículo. inclusive, por muito tempo as meninas usavam azul e os meninos rosa, até que as lojas de roupa infantil decidiram mudar. inclusive havia uma tabela de quais loja vendiam rosa pra menino e azul pra menina e quais lojas já haviam invertido o rolê. não preciso nem falar dos sovacos peladinhos das mulheres né? até os anos 20 ninguém depilava axila, e só começaram porque uma marca de lâminas de barbear decidiu que precisava aumentar suas vendas após queda da bolsa e que melhor jeito do que convencer as mulheres a arrancarem seus pelos? enfim gente, tudo é passível de desconstrução e o jeito que a gente vive é uma mentira.

mas meu problema agora não tem sido esse.

tenho pensado muito nos nossos conceitos de tempo, de passado e futuro, e de como isso tudo também é uma invenção social. animais não tem presente e futuro, e tá, eles também não tem consciência o que faz as coisas um tanto quanto mais fáceis, mas a gente não tá sabendo usar a consciência direito. o fato de a gente saber que existe e que vai deixar de existir não devia servir pra fazer as coisas terem sentido, mas pra nos mostrar, sem questionamento, o completo contrário: nada tem sentido. nem nossa própria consciência.

às vezes sinto que não estou vivendo minha vida, mas que a eu adolescente tá dando um rolê pelo futuro pra ver como tão as coisas.

que tanto da minha vida seja agora como eu desejava na adolescência só me faz reforçar essa ideia. lembro do filme a chegada, e do conto no qual foi inspirado, em que a ideia de tempo é que tanto passado quanto futuro são imutáveis - e que se tivéssemos outro tipo de consciência que não a humana, poderíamos passear pelo futuro da mesma maneira que passeamos pelo passado. lembraríamos do futuro como nos lembramos do passado, o caminho pra trás e pra frente é a mesma coisa. em outro conto do livro de ted chiang (que escreveu o conto que inspirou o filme), há uma história de viagem no tempo, e que como as coisas do passado dependem de ações futuras do mesmo jeito que consequências futuras dependem de ações passadas.

penso no estado da minha vida agora. nas coisas que alcancei - não foram muitas nem grandiosas, mas foram as coisas que eu gostaria de ter alcançado quando pensava na minha vida futura na adolescência. e penso no caminho que trilhei pra chegar aqui, e percebo o quanto desse caminho foi essencial pra que eu estivesse como estou agora. um passo diferente e talvez eu ainda morasse com meus pais. talvez ainda estivesse num relacionamento abusivo. talvez ainda trabalhasse na escola infernal da qual saí em 2015. ao mesmo tempo, se eu não tivesse morado com meus pais até o momento em que morei, se não tivesse tido um relacionamento abusivo, se não tivesse trabalhado na escola infernal, eu não estaria agora, nesse momento, na minha própria casa, num relacionamento incrível, trabalhando onde estou e com os projetos que tenho agora.

entendem?

acredito cada vez mais que livre arbítrio é mais uma ilusão, mais uma invenção que aceitamos como correta apenas porque ela cabe perfeitamente no jeito que nossa consciência funciona. acredito cada vez mais na teoria de ted chiang, que o futuro é tão imutável quanto o passado, que nossas escolhas nos levam para onde temos que estar, e que no fim a gente morre e acabou.

às vezes sinto que não estou vivendo minha vida, mas apenas assistindo algo que era meu caminho desde sempre, apenas visitando o agora pra entender o que tá rolando e poder querer essas coisas na adolescência, e ao mesmo tempo eu quis essas coisas na adolescência pra que pudesse tê-las, no momento certo, do jeito ideal. às vezes parece que eu estou apenas lembrando do agora, como me lembro do passado, mas que não existe nada me conectando concretamente como nenhum desses acontecimentos dos quais eu lembro.

não sei se eu estar me dissociando da minha vida dessa maneira é sinal de enlighment ou de que eu devo ir ao psiquiatra, mas eu me sinto mais livre do que as outras pessoas parecem ser, me sinto liberta, me sinto eu mesma mesmo que eu não pareça ter poder sobre minha própria vida.



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