12.1.17

namorado me mandou por email um ted talk que ele assistiu e com o qual se identificou muito. o vídeo fala sobre dois tipos de pessoas nos ambientes de trabalho, os givers e os takers. é claro que ele se identificou com o perfil do giver, porque a gente sempre acha que tá dando mais do que tá recebendo, especialmente no trabalho.

eu não vi o vídeo ainda, porque minha internet não permite tamanho luxo.

mas já sei que não concordo com dividir as pessoas em duas categorias, jamais. a gente divide o mundo sempre em dois, os bons e os maus, os certos e os errados, e eu não vejo as coisas assim há muito tempo.

uma vez estava conversando com minha família e minha avó - vejam bem, uma idosa, uma pessoa cujos valores são de outra época, e além de tudo uma mulher que teve pouca autonomia na vida - insistia em dizer que os estados unidos eram "bons" e os países do oriente médio (um SIC gigantesco aqui) eram "maus". tentei explicar pra ela que nenhum país é bom ou mau, cada nação está procurando defender e desenvolver seus próprios interesses, e que bom e mau é extremamente fácil de relativizar. tentei dizer também que o que a gente sabe sobre as políticas tanto dos estados unidos quanto do oriente médio vem de uma mídia jornalística que também defende certos interesses, e por isso que as notícias nos fazem achar que tais países são bonzinhos e outros tais não são. se você pisar no iraque e no afeganistão dá pra perceber quão relativa é a bondade americana. minha vó não consegue entender isso, ela vem de um mundo que estava inteiro dividido em dois, e sempre um dos dois lados era bom e o outro mal.

quando a gente divide as pessoas em givers e takers, a gente esquece que todos nós estamos, sempre, lutando pelos nossos próprios interesses. é claro que existem pessoas que enxergam o todo, a comunidade, como mais importante e direcionam suas ações para o bem comum. e é claro que tem gente que acha que o mais importante é assegurar que eu estarei em uma boa situação antes de olhar pra o todo. isso não faz de ninguém bom ou ruim, são maneiras diferentes de olhar o ambiente, de se' relacionar com o que está a nossa volta. também não acho que isso faz de certas pessoas "má caraters".

é claro que egoísmo demais é ruim. é claro que não conseguir se colocar na posição do outro é ruim. são atitudes ruins que vem de uma formação moral, pessoal, cultural, que nós como indivíduos não conseguimos compreender - só conseguimos compreender as ações que vem da formação semelhante à nossa. minha mãe, por exemplo, não sabe se colocar na posição de outros. ela só enxerga a sua própria situação, e como ela pode resolver seus problemas pra que ela não perca status, dinheiro, dignidade, etc. isso faz da minha mãe uma pessoa ruim? talvez faça, talvez não. não posso dizer que minha mãe foi ruim pra mim, pra minha irmã, pro meu pai, pros familiares dela. talvez socialmente ela seja uma pessoa que precise enxergar o outro antes de si mesma, é isso. ela não é uma taker nem uma giver, embora em certas situações ela seja um ou o outro. como mãe ela é uma giver (que às vezes gosta de deixar bem claro tudo que ela nos deu e tudo de que ela abriu mão, então mesmo em relação à família, quão giver ela é?). como membro da sociedade, acredito que ela seja uma taker. mas ela acredita que é uma giver e que "eles" (eles quem, jamais saberei. o governo? o pt? as pessoas mais pobres, mais negras, menos paulistas, menos classe média?) são os takers.

nós sempre acreditamos que somos os givers. sempre acreditamos que tem alguém, ou algo, tirando coisas de nós, exigindo coisas de nós, e nós estamos só oferecendo.

é fácil dividir o mundo em dois. mais fácil ainda é sempre se colocar no papel do herói.


não vi o vídeo, mas tenho bem claro na minha cabeça que não dá pra usar personagens fictícios pra ilustrar algo que você acredita sobre humanos. personagens são arquétipos, cujas ações devem fazer sentido dentro da narrativa e dentro do universo fictício da onde eles vêm. além disso, dizer que o dr house é um giver só mostra que você realmente não entendeu o propósito do personagem. no programa, o house é um taker, dos piores, dos mais fáceis de identificar. acontece que ele tem um talento incrível, algo que ninguém, nem o mais giver dos givers (o amigo dele wilson, no caso da série), consegue mimetizar. então o house faz coisas boas. pelas pessoas, pelos pacientes. mas a maneira que ele utiliza não é nem um pouco giving, embora possa ensinar lições valiosas às pessoas ao redor dele. ele não é um giver, ele é um asshole que faz o trabalho dele.

my point is: você pode ser talentoso. você pode usar seu talento pra ajudar pessoas. isso não faz de você um giver.

o ned, de simpsons, é um fanático religioso. todas as suas ações são pontuadas por uma crença que é zero giving. uma crença que exclui certos tipos de pessoas, proíbe certos tipos de comportamento, tudo por um valor moral de outrem. essa mesma crença diz que devemos ajudar ao próximo, e é isso que ned faz. por obrigação. por uma conexão com uma religião. ele não é um giver, ele é um follower.

o stewie é um bebê. ele é egoísta, egocêntrico, narcisista. bebês são assim. bebês são completamente dependentes das pessoas ao redor deles, é claro que eles são takers. ah mas o stewie não é um neném qualquer, ele fala, ele cria planos mirabolantes, ele é malvado. novamente, o arquétipo do stewie é de uma pessoa má. isso é um arquétipo, é um conjunto de características que representam maldade colocadas juntas pra criar uma personalidade fictícia. tudo que ele faz, todas as atitudes dele horrorosas (e que também dão o tom cômico a muitas cenas de family guy), são essenciais para que o personagem faça sentido naquele universo. pessoas não são arquétipos, pessoas são extremamente complexas.

o sith é mau. ele é mau bagarai. darth vader também era. mas eles são takers? eles tem uma visão política daquele ambiente deles e querem, assim como os estados unidos ou algum país do oriente médio, fazer com que sua visão prevaleça. a gente vê a história no ponto de vista do luke e da leia, portanto é claro que os siths são maus: eles tem objetivos diferentes dos heróis da história. o mundo não é dividido em "force" e "dark side of the force". nós temos todas as ambivalências dentro de nós, podemos ser givers ou takers conforme a necessidade e às vezes podemos ser os dois ao mesmo tempo.

é comum no ensino fundamental 1 que se estudem fairy tales e fractured fairy tales. os fractured fairy tales são versões alternativas dos contos clássicos e tradicionais, e um em específico, "the true story of the three little pigs", é bem claro quanto a isso: maldade e bondade, giving e taking, é tudo questão de ponto de vista. (e também prova que é só ler que a gente consegue perceber as coisas mais a fundo, mesmo se for livro de criança. um beijo pra literatura, te amo). no livro, os três porquinhos são egoístas e se recusam a ajudar o lobo, e sofrem as consequências de suas atitudes. o lobo, por outro lado, precisava de ajuda, e além de não recebê-la ainda é culpabilizado pelo que aconteceu com os porcos. claro que aqui cabe outra discussão, a de o culpado por uma violência se vitimizar e os que sofreram a violência serem responsabilizados (algo que acontece muito com a questão da violência contra a mulher), mas isso não é discussão de fundamental 1. no fundamental 1 é essencial discutir a relativização do bem e do mal  e de deixar claro que tudo - TUDO - depende de como você enxerga a situação.



talvez na vida adulta nós precisemos trabalhar mais esse exercício de relativizar também, porque eu tô exausta dessa dicotomia que todo mundo cria pra tudo.

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