11.1.17

tem um trecho do livro da mara wilson que ela conta que após a morte da mãe ela quis muito entrar no "show choir" da escola dela, em específico num grupo só de meninas, pois queria se sentir parte de uma irmandade, de uma sororidade. ela comenta que em casa, nem o pai nem os irmãos jamais fizeram piada de "coisas de menina" mas ela sempre achava que eles iam. "girls stuff seemed both frivolous and complicated, and I didn't want to be seen as neither". quando você é uma mulher você tá sempre se equilibrando num limite entre ser fútil demais e complicada demais, mas você também não pode ser fútil de menos, e muito menos uma pessoa rasa e simples. ser mulher é uma loucura. mara comenta depois que um dos namorados mais sérios que ela teve, em algumas conversas dava a entender que as ambições dela - até as ambições esdrúxulas e fantasiosas, como lutar contra zumbis no caso de um problema desses de contaminação que acontecem em filmes - não eram as corretas pro tipo de pessoa que ela era. quer ser comediante? ah, mas você é muito ansiosa e não sabe lidar com crítica. quer matar zumbis? ah mas você não é corajosa, provavelmente estaria com todos nós nos escondendo em segurança.

ser mulher é ter que provar o tempo todo que você é quem você diz ser, e não o que o resto do mundo enxerga em você. percebo isso o tempo todo, mas é engraçado quando a gente percebe que essa luta existe até quando ela não devia mais existir. eu sinto que sou subestimada. por amigos, pelo namorado às vezes, pelo meu pai. são 29 anos sendo subestimada apenas por ser mulher, a gente aprende a identificar. é exaustivo. o tempo todo temos que mostrar somos capazes de fazer seja lá o que a gente tenha se proposto a fazer.

já falei aqui sobre a música does not suffice, da joanna newsom. e falei exatamente sobre a questão de tudo que é desgostado em uma mulher são as coisas que nos fazem fúteis, mas também complicadas. e aí lembro também do filme coração de cavaleiro, em que heath ledger, ao ser questionado por sua paquerinha da idade média sobre a cor de sua roupa no baile, pra que ela pudesse ornar com ele, diz que ela é apenas uma "silly girl". como se subir em cavalos e derrubar seu oponente com um bastão gigante não fosse silly. como se derrotar alguém numa luta de espadas também não fosse uma demonstração fútil de poder e força.

é exaustivo ter que mostrar que meus interesses não são mais supérfluos que os interesses considerados masculinos. é exaustivo ver futebol nos grandes veículos jornalísticos como se jogar bola fosse de suma importância para o mundo, mas se eu falo sobre roupa e se eu gosto de pensar no que eu visto, é "coisa de mulher", portanto, menos relevante. é exaustivo saber que mulheres que gostam de futebol são consideradas "não como as outras" porque se interessar e entender de um assunto tipicamente masculino faz a importância de uma mulher aumentar.

e assim por diante com tudo no mundo.

um ex namorado no dia das mulheres me parabenizou e disse "esse dia é pra você, você é uma mulher de verdade". não tive coragem de enfrentá-lo no momento (talvez seja isso que me faça uma mulher de verdade? o fato de que eu tenho opiniões muito claras sobre mim e sobre os outros mas eu nem sempre as expresso, o que é a coisa certa pra uma mulher hoje em dia: você pode pensar, pode ser complexa, pode enxergar as merdas todas desses sitema social escroto, desde que não incomode os outros com suas ideias. acho que no caso desse ex era isso mesmo) mas me perguntei o que isso significava. por que ele achava que eu era uma mulher de verdade em oposto a tantas outras? porque eu gosto de sexo e não tenho vergonha disso? porque eu faço piadas e sou engraçada? porque eu gosto de música?

não existe nada que faça de mim mais ou menos mulher que outras. gostar de roupa não te faz mais mulher, assim como não gostar não te faz menos mulher. ser "outspoken", inteligente, engraçada, nada disso me faz menos ou mais mulher. e é exaustivo ver que pro resto do mundo existem, sim, mulheres "de verdade" e mulheres "não de verdade" e como os parâmetros mudam de pessoa pra pessoa, de contexto cultural pra contexto cultural, enquanto pra ser um homem de verdade você só precisa ter um pênis. (e ser hétero, né, porque aparentemente gay não é homem de verdade - mas mulher homossexual é mulher de verdade sim, só porque os desejos sexuais amplamente aceitos pelo mundo ocidental consideram que duas mulheres que fazem sexo estão atuando pra vista masculina).

é

e
xaus
ti
vo

e triste.
e aí me perguntam como é que eu posso não querer ter filhos.
e eu digo: é porque se eu tivesse um menino eu ia correr o risco de ele crescer e dizer pra uma mulher que ela é "uma mulher de verdade", "não é como as outras mulheres".
e se eu tivesse uma menina eu não ia correr risco nenhum: ela ia crescer e ter que ouvir essas merdas.

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