7.1.17

tô lendo o livro da mara wilson, a atriz que fez matilda, e tá sendo uma bela duma experiência.

primeiro porque eu não gosto de biografias. comprei a do morrissey quando lançou mas ninca superei a preguiça de ler primeiro pelo tamanho - o cara não conseguir fazer uma edição melhorzinha da própria vida? tudo aquilo é relevante? - segundo porque o morrissey, gente, escreve de um jeito muito pedante (não sei como não esperava isso, afinal as músicas dele não são exatamente simples e leves né).

mas a auto-biografia da mara wilson foi recomendada pela ilana, de broad city, e se ilana gosta quem sou eu pra desgostar antes de sequer ler? então baixei, e tô lendo, e tô amando.

a menina escreve bem demais, gente, e ela consegue falar sobre si mesma, sobre suas conquistas, seus conflitos, seus momentos de dúvida, sem soar como se ela considerasse aquilo extremamente importante pra ninguém. é a jornada dela, mas mais importante que isso, é um exercício de escrita, de story-telling; ela é, afinal, uma escritora desde sempre.

uma das partes que eu mais gostei foi quando ela vai num rolê de autógrafos do cientista neil degrasse tyson e pergunta pra ele: "como é que você consegue saber com tanta propriedade sobre sua própria insignificância e não ter crises existenciais toda manhã?"

a mara conta, em muitos momentos do livro, que sempre foi meio neurótica e paranóica, especialmente com questões que assombram muita gente, tipo morte, o universo, deus, religião e ateísmo, etc. ela conta do processo dela de judia praticante a não acreditar mais em deus, e embora isso tenha permitido que ela tivesse uma relação extremamente importante com a ciência, também a deixou meio lóki. nós não temos nenhum propósito? não tem deus olhando as coisa tudo aqui? depois da morte vem o nada? como sobreviver desse jeito?

acho curioso as respostas diferentes que humanos diferentes têm para a mesma situação. eu nunca acreditei em deus (a não ser por um período curto na infância em que eu achei que se eu acreditasse e pedisse pra ele toda noite, um dia eu ia acordar linda), e quando eu finalmente aceitei que nada tem propósito, que nada faz sentido, que não existem significados pras coisas (ou existem, mas são inventados por nós e não significados universais), foi uma libertação. não foi, em nenhum nível, um problema. se eu for bem sincera, essa epifania fez com que as coisas ficassem mais fáceis, mais leves, mesmo que de efeito colateral eu tenha desenvolvido um certo descaso por conceitos que as pessoas amam, como família, morte, amor, essas coisas.

ainda nessa questão, há uma cena muito linda em que mara está na terapia e conversa com psiquiatra sobre esses momentos em que nós de repente percebemos que existimos, que somos um conjunto de coisas inventadas e criadas que resultam em uma pessoa, uma identidade, e aí aquele mini conflito de "essa identidade que eu inventei, essa pessoa que os outros enxergam, isso é real? isso sou eu?". eu tenho esses momentos, muito, mas também acho eles libertadores. a mara entrava em pânico,

Every now and then I realize I exist, and it's terrifying. 
(...)
The next time at my psychiatrist's office, I ask him about if before I leave. "Do you ever have those moments where you 'realize yourself'?" (...) "Yeah, sure, I have those." "Is there anything I can do to make them go away?" I say. "Or make them better?" He just smiles as he opens the door. "Learn to enjoy them."

em muitos momentos ela conta sobre hollywood, sobre ser uma criança no estrelato, sobre a relação com adultos dentro dessa indústria, mas antes de ler o livro eu vi algumas notícias sobre a mara e o próprio livro. todas as notícias tinham manchetes do tipo "mara wilson fala sobre baixa auto-estima e sobre se achar feia para os padrões de hollywood", seguidas de textos falando sobre a scarlett johansson e sobre como a mara se comparava com ela e desistiu de atuar por não estar nos padrões hollywoodianos.

primeiramente, vamos parar com isso???? de tudo que a mara conta no livro, de todos os insights deliciosos, engraçados, reveladores, é só sobre a scarlett johansson que os jornalistas conseguem falar? é só sobre a mara se achar feia? isso não é nem verdade, não é isso que ela conta e mesmo se fosse não seria de longe o motivo pelo qual ela escreveu o livro e pelo qual a gente devia querer ler.

e mesmo nessa discussão, eu tenho sérios problemas com tudo que a mara coloca como empecilho pra sua carreira de atriz. ela comenta de alguns papéis que foram dados pra jovem kristen stewart, pra jovem scarlett e até pra jovem lindsay lohan. ela comenta sobre os padrões de beleza de holywod sim, e sobre como passou a ser difícil ser chamada pra papéis em filmes legais depois de uma certa idade. ela fala sobre a dificuldade de ser uma criança fofa e adorável e virar uma adulta normal. mas eu me perguntei, todo o tempo em que lia essa parte do relato: mas gente? e todas as atrizes fodonas incríveis talentosas que trilharam um caminhi magnífico em hollywood com puro talento? e que tal maggie gyllenhal, joan cusack, meryl streep, toni collette, todas atrizes maravilhosas e de muito sucesso, e nenhuma dentro dos padrões de beleza? eu me pergunto se a mara alguma vez considerou que a scarlett ou a kristen ou a lindsay jamais conseguiriam atuar em filmes e com papéis do peso dessas mulheres. eu questiono essa mania de pegar como exemplo de sucesso pessoas que seguem uma fórmula que simplesmente não se aplica a nós.

se a mara era "feia", porque ela não começou a procurar papéis que valorizassem seu talento como atriz? se tantas outras atrizes conseguem se provar - não estou dizendo que é fácil, nem que foi de um dia pro outro, mas a questão é que tem coisas que não são fáceis mesmo, não adianta falar "eles não me querem" fim, tem que continuar tentando - por seu talento puramente e não por sua aparência, por que a mara não tentou? será que era um caso de se considerar feia demais para a indústria ou, talvez, de ter um nível de habilidade de atuação que garante papéis a mulheres extremamente bonitas pelo simples fato de que elas não terão que atuar de verdade, apenas vender um filme? quão boa atriz a mara era, ou quão bonita ela teria que ser pro seu talento ser considerado realmente um talento?

vocês entendem o que eu quero dizer?

é muito fácil criticar hollywood - afinal, hollywood é altamente criticavel, tem muita coisa duvidosa acontecendo por lá, mas quão fácil é olhar pra dentro e se perguntar se o seu talento é o suficiente?

enfim. fato é que mara escreve sobre holywood e suas experiências como atriz mirim com um olhar distante, de quem já consegue compreender a fundo o impacto que aquilo teve sobre sua vida, e no geral o tom é meio triste, meio solitário, como ela se sentia em meio aquele monte de adulto. percebi que a desilusão era maior do que o orgulho de ter participado de clássicos como uma babá quase perfeita, mas o tempo todo eu me pegava pensando: "mas e matilda? ela não vai falar de matilda?"

matilda, acredito eu, é um filme muito importante pra muitas e muitas crianças. meninas, como eu, que tinham na sessão da tarde tão poucas protagonistas em quem se inspirar, acharam em matilda não apenas uma inspiração, mas alguém com quem se identificar. uma menina, que além de tudo gostava de ler, que além de tudo tinha aprendido a ler sozinha, antes de frequentar a escola, e que achava nos livros um refúgio, um escape. eu achava impossível, especialmente depois de ler os artigos, que ela não se orgulhasse de ter sido esse exemplo pra tantas meninas.

e durante todo o relato sobre seus filmes, matilda nunca aparece.

até que de repente tem um capítulo inteiro sobre a matilda. e é uma carta da mara para a matilda. e é lindo. ela conta sobre o danny devito, como ele foi o primeiro diretor que a tratava como uma pessoa, que perguntava sobre a vida dela, que pedia a opinião dela nas cenas do filme. e foi na casa dele e da esposa - os pais horrorosos da matilda no filme - que ela dormiu enquanto a mãe dela passava muito mal no hospital, com câncer. não terminei de ler ainda, mas essas memórias, a relação que a mara demonstra ter com a matilda (não só a do filme, mas a do livro também, e aquela que vive em todas nós), tem me deixado bem emocionada. gostei muito de saber que mara também era uma leitora ávida na infância, que as histórias que ela lia e criava foram o motivo pelo qual, com 4 anos, ela pediu à mãe que a levasse a audições. gostei de ler sobre quando ela conheceu a matilda, a primeira vez que ela ouviu a leitura da história. me emocionou saber que esse foi o único papel com o qual mara realmente se importou, o único papel que parecia ter sido destinado a ela (eu ainda gosto da ideia da inevitabilidade mais do que o destino, ainda mais depois que assisti a chegada)

eu queria escrever mais mas no meio desse texto fui interrompida por motivos de: havia um cachorro na minha porta. e eu decidi que esse cachorro devia morar na minha casa. e agora eu tenho uma cã chamada matilda.


e minha única resolução de ano novo, que era não gastar dinheiro, foi por água abaixo, porque bicho, gente, não é nada barato. mas em compensação: agora eu tenho mais uma matilda na minha vida, e isso só pode ser coisa boa.

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