8.2.17

o primeiro conto do livro "stories of your life and others" do ted chiang - aquele livro que tem um conto que inspirou o filme a chegada - é uma história da torre de babel. a história não menciona nada sobre deus, religião, céu. a única referência bíblica é a torre de babel em si mesma, que é mais um cenário para retratar relações humanas do que qualquer outra coisa.

na história a torre é tão grande. tão alta, que existem cidades inteiras lá em cima, cidades independentes do chão, com cidadãos para os quais a vida é aquela, a milhares de quilômetros de altura. é quando está numa altura dessas tão absurdas que é difícil para mim conceber que o protagonista vê pela primeira vez o sol se por lá de cima. e ele vê  as sombras ocupando o mundo lá embaixo, ele vê as sombras escurecendo montanhas, e ele percebe que a noite é isso: a sombra do planeta terra sobre si mesmo.

a noite nada mais é do que o estado natural do nosso mundo, da vida em uma pedra no espaço sideral. a terra, gente, é escura, tenebrosa, fria. a terra é uma sombra. a gente tá tão acostumado com a luz, com esse sol tão próximo da gente que faz parecer que nosso planeta é quente, é iluminado, que as coisas podem dar certo aqui, dar frutos, crescer. isso é um fator de sorte, é uma aleatoriedade. a terra, como todos os planetas por aí, é escura, é a sombra de si mesma. fiquei muito tempo pensando nisso depois de terminar

acabei de assistir a série sobre o julgamento do oj simpson. podia comentar muita coisa, desde o fato de a série ser sobre o julgamento dele e não sobre o crime. a questão já muito pontuada internet a fora do uso do problema racial para diminuir a importância de uma discussão que deveria ter sido sobre violência doméstica, violência contra a mulher. a maestria dos atores e dos roteiristas. o ross sendo o pai das kardashians. o john travolta que por muitos motivos é um show por si só.

mas o que eu vou falar aqui é sobre a marcia clark. e também da sarah paulson, que a retratou de maneira tão bonita, tão sensível (e que foi de american horror story pra american crime story, todo um dedo pra escolher seus papéis, né). marcia clark, a personagem da série, é de longe, em minha opinião, a melhor personagem feminina da tv. ela superou todo mundo. ela é uma mulher completa, inteira, em suas fraquezas e fragilidades e também em sua força, seu posicionamento claro e sem desculpas. vez em quando leio discussões sobre a tal da "mulher forte" na ficção, e em como ela é simplesmente o outro lado da mulher frágil e sensível. as mulheres nunca são os dois, elas precisam ser resumidas em uma coisa ou outra. marcia clark tem todas as nuances de um ser humano acrescentadas com todas as nuances de ser uma mulher num mundo que é dos homens.

eu chorei que nem um bebê no episódio em que ela diz pro juiz que não pode ficar até mais tarde no tribunal por causa dos filhos. e aí, se sentindo culpada por não trabalhar, culpada por ser mulher e mãe, ela não vai pra casa cuidar dos filhos. ela fica no escritório. como um homem ficaria. e o ex marido expõe para todos, para um país inteiro, seus problemas pessoais. o outro ex marido também decide que ele pode expôr a vida pessoal dela. a mídia inteira a ridiculariza, a julga, a mede, pelo seu cabelo, pelas suas roupas, pela sua postura pouco feminina. pouco suave. o mundo inteiro quer que ela pareça mais mulher, mas não que ela seja mais mulher - ser mais mulher significa ter filhos, ter horário pra ir pra casa, ter responsabilidades domésticas das quais o mundo corporativo e a mídia não querem falar. mas ainda assim ela precisa parecer feminina, usar roupas de cores claras, ter um cabelo que o público aceite. quão ridículo é isso?


a cena em que marcia entra no tribunal com seu novo corte de cabelo partiu meu coração de tantas maneiras, tantas. enquanto os advogados de oj podiam usar a carta do racismo, do ser negro, de suas lutas sociais que nada tinham a ver com o crime em questão, marcia precisava se calar quanto a ser mulher. seus esforços pra que a violência doméstica seja punida são em vão. porque a mulher ainda pode e é ridicularizada apenas por ser mulher. ser mulher é uma piada, ser assassinada por apenas ser mulher é considerado irrelevante no teatrinho das buscas por justiça social.

pensei muito nos tablóides publicando fotos do corte de cabelo de uma advogada extremamente competente. porque uma mulher precisa ter o cabelo certo para ser valorizada, para que seu trabalho tenha alguma relevância. pensei que já há muito tempo foi criminalizado o racismo, e eu sei que isso não faz com que ele não exista mais, mas garante que jamais algum tablóide publicaria uma foto de johnnie cochram e ridicularizaria seu corte de cabelo por ser "de negro". ou seus ternos e suas roupas e sua postura por ser um homem negro. ninguém faz isso, ninguém publica manchetes assim - o que não quer dizer que não há pessoas que pensem dessa maneira. mas existe uma lei que protege qualquer possível vítima de racismo desse tipo de retrato estereotipado, preconceituoso, mentiroso. uma mulher jamais terá esse privilégio. não existe lei alguma que criminalize os estereótipos femininos usados como maneira de ridicularizar, diminuir, oprimir uma mulher.

e que tudo isso estivesse acontecendo na frente de um planeta inteiro assistindo e ainda assim nenhuma discussão dese tipo surgiu. porque inocentar um homem pela sua pele negra e não pelas provas e evidências era mais importante do que punir um assassino.

o mundo, gente, é sombra pura. esse solzinho te iluminando, essa luz, esse calor, é apenas máscara. maquiagem. a escuridão, gente, é a verdadeira forma do mundo.

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