20.3.17

the man who mistook his wife for a hat

estou lendo esse livro, sobre o qual minha primeira memória deve ser de 10 anos atrás, quando meu primo o recomendou. eu devo ter perguntado do que se tratava e ele deve ter explicado, mas a única coisa que ficou na minha cabeça foi o título, que pra uma pequena fã de realismo fantástico parecia uma promessa de conto a la italo calvino.

algumas semanas atrás, procurando por outros livros, achei esse.

the man who mistook his wife for a hat.

que puta título. parece coisa do douglas adams. do george saunders. uma coisa seinfeld meets neil gaiman.

mas não é. acho que nunca na vida comecei um livro com ideias tão disparatadas quanto ao seu assunto. nunca errei tão feio. eu tava esperando fantasia. comédia. ficção. o livro me deu o oposto completo..

talvez menos na comédia, ela ainda tá lá, mas daquele jeito triste de saber que algumas situações absurdas são muito reais.

the man who mistook his wofe for a hat foi escrito por um neurologista, oliver sacks, que conta sobre seus casos mais difíceis, mais raros, mais estranhos, todos relacionados a lesões ou problemas no lado direito do cérebro. ele mostra, caso a caso, como tais lesões, cujos efeitos físicos não parecem graves - ao contrário dos efeitos no lado esquerdo do cérebro, que causam paralisias, perdas nos sentidos (cegueira, surdez), problemas de fala, etc - mas que transforam profundamente o senso de indivíduo, de ser ciente que vive experiências emocionais através de um corpo físico. essas pessoas passam a não pertencer mais ao ambiente social e humano simplesmente porque perdem ou danificam certas habilidades de como sentir o mundo, a realidade.

no primeiro conto, o conto-título do livro, conhecemos um homem que perdeu a habilidade de reconhecer rostos e objetos. ele não sabe que uma luva é uma luva sem que alguém a vista, ele não reconhece a esposa (nem pessoa nenhuma) pelo rosto, ele descreve objetos mas não sabe o que eles são. crazy shit.

depois tem a história do cara que acha que ainda está em 1945 logo após a guerra, não produz memórias novas. ele chora toda vez que vê o irmão porque não consegue entender a razão de ele parecer tão velho.

mas as duas histórias que mais me impressionaram foram as de pacientes que perderam contato com seu próprio corpo.

em uma delas, uma mulher deixa de "sentir" o próprio corpo. essa certeza que temos sobre nosso corpo, que nos faz acertar a boca com o garfo sem precisar de espelho, que faz a gente conseguir por um pé na frente do outro e andar sem precisar olhar pra onde nos pés estão, isso chama propriocepção. percepção própria. isso é puramente neurológico, estragou a parte do cérebro que faz isso, estragou toda sua relação com o corpo. foi o que aconteceu com a paciente do conto. ela perdeu a propriocepção. ela anda e cai, ela acha que a mão dela tá na cama mas na verdade tá na barriga, etc.

na outra, um paciente está dormindo e acorda no meio da noite e vê uma perna, morta e fria e amputada, em sua cama. após, horrorizado, empurrar a perna pra fora da cama, ele é puxado pro chão junto. porque a perna é dele. a perna é dele mas ele não a reconhece.

vocês conseguem imaginar essas coisas?

acho que a amnésia retroativa, o não reconhecer objetos, esse tipo de problema é muito mais fácil de compreender, porque é uma perda de algo que já era abstrato e imaterial. nossas memórias e os significados que damos pra coisas e rostos são coisas que já existem só no nosso cérebro. memórias e pensamentos meio que já "não existem", são frágeis, são ilusões.

mas não reconhecer a própria perna? ter que constantemente prestar atenção em como você anda, o que pega com as mãos, como sobre num ônibus? loucura.

outra coisa curiosa é que uma vez que entendi sobre o que o livro ia falar e comecei a ler os casos, eu esperava algum tipo de conclusão, cura, um final pras histórias tão profundamente complicadas dessas pessoas. esperava uma coira meio house, em que no fim sempre se descobre qual é o problema e como tratá-lo, e a única outra opção é a morte. não estava preparada pra me confrontar com o fato de que o neurologista muitas vezes não pode curar seus pacientes, mas apenas ajudá-los a viverem confortavelmente e, na medida do possível, sem conflitos.

é uma vibe muito mais e.r. (aka plantão médico, com saudoso george clooney), que muita gente morria, muito mendigo catarrava, sem que essas coisas significassem algo, sem que esses personagens tivessem um ciclo de começo, meio e fim com propósito narrativo. e.r. era meio que como a vida, em que a gente vai vivendo nossos problemas em meio aos problemas do trabalho e da família e tudo mais que consiste em viver. as coisas não eram concluídas necessariamente, e quando eram não havia lição de vida a ser aprendida, conclusão moral do episódio, nada disso, a série era sobre relações, as duradouras e as efêmeras, e como elas acrescentam algo ou são influenciadas pelo nosso "eu interno". as relações entre médico e paciente também eram retratadas assim. o médico não era como em house, o salvador, o chosen one, o que dá vida nova a alguém. o médico em e.r. era mais uma pessoa com a qual a gente se relaciona por um tempo definido e depois vai embora e nunca mais lembra.

(also, revi amnésia esses dias - completamente sem querer, quando decidi assistir não tinha começado a ler o livro ainda, mas quando efetivamente assisti já estava lendo. achei muito curioso que um filme tão bom, após a leitura desse livro, passou a ser tão inverossímil e absurdo. um homem com perda de memória recente não sabe que tem perda de memória recente, e raramente consegue existir no dia a dia sem constante observação médica e local pra viver limitado e familiar.)

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